Tuesday, 9 March 2010

A pipoca e o fogo da transformação

A pipoca *

Rubem Alves

A culinária me fascina. De vez em quando eu até me até atrevo a cozinhar. Mas o fato é que sou mais competente com as palavras do que com as panelas.

Por isso tenho mais escrito sobre comidas que cozinhado. Dedico-me a algo que poderia ter o nome de "culinária literária". Já escrevi sobre as mais variadas entidades do mundo da cozinha: cebolas, ora-pro-nobis, picadinho de carne com tomate feijão e arroz, bacalhoada, suflês, sopas, churrascos.

Cheguei mesmo a dedicar metade de um livro poético-filosófico a uma meditação sobre o filme A Festa de Babette que é uma celebração da comida como ritual de feitiçaria. Sabedor das minhas limitações e competências, nunca escrevi como chef. Escrevi como filósofo, poeta, psicanalista e teólogo — porque a culinária estimula todas essas funções do pensamento.

As comidas, para mim, são entidades oníricas.

Provocam a minha capacidade de sonhar. Nunca imaginei, entretanto, que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu.

A pipoca, milho mirrado, grãos redondos e duros, me pareceu uma simples molecagem, brincadeira deliciosa, sem dimensões metafísicas ou psicanalíticas. Entretanto, dias atrás, conversando com uma paciente, ela mencionou a pipoca. E algo inesperado na minha mente aconteceu. Minhas idéias começaram a estourar como pipoca. Percebi, então, a relação metafórica entre a pipoca e o ato de pensar. Um bom pensamento nasce como uma pipoca que estoura, de forma inesperada e imprevisível.

A pipoca se revelou a mim, então, como um extraordinário objeto poético. Poético porque, ao pensar nelas, as pipocas, meu pensamento se pôs a dar estouros e pulos como aqueles das pipocas dentro de uma panela. Lembrei-me do sentido religioso da pipoca. A pipoca tem sentido religioso? Pois tem.

Para os cristãos, religiosos são o pão e o vinho, que simbolizam o corpo e o sangue de Cristo, a mistura de vida e alegria (porque vida, só vida, sem alegria, não é vida....). Pão e vinho devem ser bebidos juntos. Vida e alegria devem existir juntas.

Lembrei-me, então, de lição que aprendi com a Mãe Stella, sábia poderosa do Candomblé baiano: que a pipoca é a comida sagrada do Candomblé...

A pipoca é um milho mirrado, subdesenvolvido.

Fosse eu agricultor ignorante, e se no meio dos meus milhos graúdos aparecessem aquelas espigas nanicas, eu ficaria bravo e trataria de me livrar delas. Pois o fato é que, sob o ponto de vista de tamanho, os milhos da pipoca não podem competir com os milhos normais. Não sei como isso aconteceu, mas o fato é que houve alguém que teve a idéia de debulhar as espigas e colocá-las numa panela sobre o fogo, esperando que assim os grãos amolecessem e pudessem ser comidos.

Havendo fracassado a experiência com água, tentou a gordura. O que aconteceu, ninguém jamais poderia ter imaginado.

Repentinamente os grãos começaram a estourar, saltavam da panela com uma enorme barulheira. Mas o extraordinário era o que acontecia com eles: os grãos duros quebra-dentes se transformavam em flores brancas e macias que até as crianças podiam comer. O estouro das pipocas se transformou, então, de uma simples operação culinária, em uma festa, brincadeira, molecagem, para os risos de todos, especialmente as crianças. É muito divertido ver o estouro das pipocas!

E o que é que isso tem a ver com o Candomblé? É que a transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação porque devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa — voltar a ser crianças! Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo.

Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre.

Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e dureza assombrosa. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser.
Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão — sofrimentos cujas causas ignoramos.Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação.

Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: PUF!! — e ela aparece como outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante.

Na simbologia cristã o milagre do milho de pipoca está representado pela morte e ressurreição de Cristo: a ressurreição é o estouro do milho de pipoca. É preciso deixar de ser de um jeito para ser de outro.

"Morre e transforma-te!" — dizia Goethe.

Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. Falando sobre os piruás com os paulistas, descobri que eles ignoram o que seja. Alguns, inclusive, acharam que era gozação minha, que piruá é palavra inexistente. Cheguei a ser forçado a me valer do Aurélio para confirmar o meu conhecimento da língua. Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar.

Meu amigo William, extraordinário professor pesquisador da Unicamp, especializou-se em milhos, e desvendou cientificamente o assombro do estouro da pipoca. Com certeza ele tem uma explicação científica para os piruás. Mas, no mundo da poesia, as explicações científicas não valem.

Por exemplo: em Minas "piruá" é o nome que se dá às mulheres que não conseguiram casar. Minha prima, passada dos quarenta, lamentava: "Fiquei piruá!" Mas acho que o poder metafórico dos piruás é maior.

Piruás são aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem.

Ignoram o dito de Jesus: "Quem preservar a sua vida perdê-la-á".A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo a panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo.

Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma grande brincadeira...

"Nunca imaginei que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu".

* O texto acima foi extraído do jornal "Correio Popular", de Campinas (SP), onde o escritor mantém coluna bissemanal.

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Thursday, 11 February 2010

Quem sou eu? {por Martha Medeiros}

Nunca fui muito de carnaval, meus leitores já sabem disso. Andei relendo um texto que publiquei aqui mesmo, neste blog, no carnaval do ano passado, onde revelava minha admiração por todos aqueles que seguem fervorosamente o trio elétrico.
Um ano se passou e continuo igualzinha, preferindo a euforia interna de meditar numa praia deserta a me lançar na multidão insana de uma tarde de carnaval. A essência de cada um, diriam alguns. A minha identidade, que depois de descoberta e acolhida, respeito e preservo como sagrada. Isso não impede alguns riscos de vez em quando, algumas escapulidas e espreitadas para além do trivial, que me tiram da rotina e me ensinam, que sim, a vida pode ser pulsante e mágica quando ousamos mudar a rota e desligar o piloto automático da rotina. E não dizem que as boas surpresas acontecem quando menos esperamos? 
E quem somos nós? Será que fazemos o que queremos ou aquilo que os outros esperam que façamos? Será que mudamos ao longo de uma vida? Ou nossos gostos, vícios e virtudes permanecem os mesmos, nunca mudam? E quem somos nós, na essência, será que sabemos ou a astrologia é que nos informa?
Exatamente sobre isso, deixo vocês com um texto inspirador de Martha Medeiros, um exercício de descoberta de si mesma em forma de prosa, ilustrado pelas cores da Ana Castilhos, em seu trabalho cheio de criatividade entitulado 'carnaval'.
Boa folia, grandes descobertas!

****
       
Quando não temos nada de prático nos atazanando a vida, a preocupação passa a ser existencial. Pouco importa de onde viemos e para onde vamos, mas quem somos é crucial descobrir.

A gente é o que a gente gosta. A gente é nossa comida preferida, os filmes que a gente curte, os amigos que escolhemos, as roupas que a gente veste, a estação do ano preferida, nosso esporte, as cidades que nos encantam. Você não está fazendo nada agora? Eu idem. Vamos listar quem a gente é: você daí e eu daqui.

Eu sou outono, disparado. E ligeiramente primavera. Estações transitórias.

Sou Woody Allen. Sou Lenny Kravitz. Sou Marilia Gabriela. Sou Nelson Motta. Sou Nick Hornby. Sou Ivan Lessa. Sou Saramago.

Sou pães, queijos e vinhos, os três alimentos que eu levaria para uma ilha deserta, mas não sou ilha deserta: sou metrópole.

Sou bala azedinha. Sou coca-cola. Sou salada caprese. Sou camarão à baiana. Sou filé com fritas. Sou morango com sorvete de creme. Sou linguado com molho de limão. Sou cachorro-quente com mostarda e queijo ralado. Do churrasco, sou o pão com alho.
Sou livros. Discos. Dicionários. Sou guias de viagem. Revistas. Sou mapas. Sou Internet. Já fui muito tevê, hoje só um pouco GNT. Rádio. Rock. Lounge. Cinema. Cinema. Cinema. Teatro.
Sou azul. Sou colorada. Sou cabelo liso. Sou jeans. Sou balaio de saldos. Sou ventilador de teto. Sou avião. Sou jeep. Sou bicicleta. Sou à pé.

Você está fazendo sua lista? Tô esperando.

Sou tapetes e panos. Sou abajur. Sou banho tinindo. Hidratantes. Não sou musculação, mas finjo que sou três vezes por semana. Sou mar. Não sou areia. Sou Londres. Rio. Porto Alegre.
Sou mais cama que mesa, mais dia que noite, mais flor que fruta, mais salgado que doce, mais música que silêncio, mais pizza que banquete, mais champanhe que caipirinha. Sou esmalte fraquinho. Sou cara lavada. Sou Gisele. Sou delírio. Sou eu mesma.
***

E você, o que é? 
Food for thought.

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Monday, 1 February 2010

Conselhos da Sabedoria

Da minha precoce nostalgia
{por Maria Sanz Martins}

Quando eu for bem velhinha, espero receber a graça de, num dia de
domingo, me sentar na poltrona da biblioteca e, bebendo um cálice de
vinho do Porto, dizer a minha neta:
- Querida, venha cá. Feche a porta com cuidado e sente-se aqui ao meu
lado. Tenho umas coisas pra te contar.
E assim, dizer apontando o indicador para o alto:
- O nome disso não é conselho, isso se chama corroboração!
Eu vivi, ensinei, aprendi, caí, levantei e cheguei a algumas
conclusões. E agora, do alto dos meus 82 anos, com os ossos frágeis a
pele mole e os cabelos brancos, minha alma é o que me resta saudável e
forte.
Por isso, vou colocar mais ou menos assim:
É preciso coragem para ser feliz. Seja valente.
Siga sempre seu coração. Para onde ele for, seu sangue, suas veias e
seus olhos também irão.
E satisfaça seus desejos. Esse é seu direito e obrigação.
Entenda que o tempo é um paciente professor que irá te fazer crescer,
mas escolha entre ser uma grande menina ou uma menina grande, vai
depender só de você.
Tenha poucos e bons amigos. Tenha filhos. Tenha um jardim. Aproveite
sua casa, mas vá a Fernando de Noronha, a Barcelona e a Austrália.

Cuide bem dos seus dentes.
Experimente, mude, corte os cabelos. Ame. Ame pra valer, mesmo que ele
seja o carteiro.
Não corra o risco de envelhecer dizendo "ah, se eu tivesse feito..."
Tenha uma vida rica de vida.

Vai que o carteiro ganha na loteria - tudo é possível, e o futuro é
imprevisível.
Viva romances de cinema, contos de fada e casos de novela.
Faça sexo, mas não sinta vergonha de preferir fazer amor.
E tome conta sempre da sua reputação, ela é um bem inestimável Porque
sim, as pessoas comentam, reparam, e se você der chance elas inventam
também detalhes desnecessários.
Se for se casar, faça por amor. Não faça por segurança, carinho ou status.
A sabedoria convencional recomenda que você se case com alguém
parecido com você, mas isso pode ser um saco!

Prefira a recomendação da natureza, que com a justificativa de
aperfeiçoar os genes na reprodução, sugere que você procure alguém
diferente de você. Mas para ter sucesso nessa questão, acredite no
olfato e desconfie da visão. É o seu nariz quem diz a verdade quando o
assunto é paixão.

Faça do fogão, do pente, da caneta, do papel e do armário, seus
instrumentos de criação. Leia.
Pinte, desenhe, escreva. E por favor, dance, dance, dance até o fim,
se não por você, o faça por mim.
Compreenda seus pais. Eles te amam para além da sua imaginação, sempre
fizeram o melhor que puderam, e sempre farão.
Cultive os amigos. Eles são a natureza ao nosso favor e uma das formas
mais raras de amor.

Não cultive as mágoas - porque se tem uma coisa que eu aprendi nessa
vida é que um único pontinho preto num oceano branco deixa tudo cinza.

Era só isso minha querida. Agora é a sua vez. Por favor, encha mais uma vez minha taça e me conte: como vai você?

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Thursday, 14 January 2010

Paciência {Arnaldo Jabour}

***
Pode ser que eu esteja errada, mas nunca vi tanta gente impaciente no mundo desde que nasci.
Parece que com a era digital, tudo tem que ser produzido em velocidade supersônica, para ontem, e mesmo assim, as pessoas parecem estar a ponto de explodir. De raiva, de tensão, de impaciência. Não à toa, as doenças psicossomáticas estão aí, como consequência nefasta da era do instântaneo.
E antes que você, caro leitor, perca a paciência de ler mais adiante, tomo a liberdade de reproduzir as palavras de Jabour (será mesmo dele?), que sabiamente conseguiu sintetizar, em tom de humor, o que se passa com a civilização de nossos tempos. Desaceleremo-nos.

****

Ah! Se vendessem paciência nas farmácias e supermercados...
Muita gente iria gastar boa parte do salário nessa mercadoria tão rara hoje em dia.
Por
muito pouco a madame que parece uma "lady" solta palavrões e berros que lembram as antigas "trabalhadoras do cais", e o bem comportado executivo...
"O cavalheiro" se transforma numa "besta selvagem" no trânsito que ele mesmo ajuda a tumultuar!
Os filhos atrapalham, os idosos incomodam, a voz da vizinha é um tormento, o jeito do chefe é demais para sua cabeça, a esposa virou uma chata, o marido uma "mala sem alça". Aquela velha amiga uma "alça sem mala", o emprego uma tortura, a escola uma chatice.
O cinema se arrasta, o teatro nem pensar, até o passeio virou novela.
Outro dia, vi um jovem reclamando que o banco dele pela internet estava demorando a dar o saldo, eu me lembrei da fila dos bancos e balancei a cabeça, inconformado...
Vi uma moca abrindo um e-mail com um texto maravilhoso e ela deletou sem sequer ler o título, dizendo que era longo demais.
Pobres de nós, meninos e meninas sem paciência, sem tempo para a vida, sem tempo para Deus.
A paciência esta em falta no mercado, e pelo jeito, a paciência sintética dos calmantes esta cada vez mais em alta.
Pergunte
para alguém, que você saiba que e "ansioso demais" - onde ele quer chegar?
Qual e a finalidade de sua vida?
Surpreenda-se com a falta de metas, com o vago de sua resposta.

E você?
Onde você quer chegar?
Está correndo tanto para quê?
Por quem?
Seu coração vai aguentar?
Se você morrer hoje de infarto agudo do miocardio o mundo vai parar?
A empresa que você trabalha vai acabar?
As pessoas que você ama vão parar?
Será que você conseguiu ler até aqui?
Respire... Acalme-se...


O mundo está apenas na sua primeira volta e, com certeza, no final do dia vai completar o seu giro ao redor do sol, com ou sem a sua paciência...

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Wednesday, 23 December 2009

De novo, o Natal.



Para alguns, página virada, para outros, início de um novo ciclo. Natal, Ano Novo, festas de fim de ano são sempre assim. Juntamos os caquinhos da esperança que nos resta e seguimos a viagem, crentes de que o despertar no outro dia vai ser mais lindo, vai ser melhor.

Para mim, sempre uma chance de refazer o percurso, de remontar o mosaico de situações espalhados ao longo dos 12 meses de um ano e relembrar o que deu certo, o que deu errado. Como fazer diferente? Como não tropeçar nos mesmos erros? Acho que a moral da história reside aí.

“Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.

Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente”


Isso é Carlos Drummond de Andrade, nosso saudoso poeta brasileiro.

O Natal é sempre mais melancólico, traz lembranças, saudades, uma falsa ilusão de renascimento, mas aí, no dia seguinte, volta a ser tudo igual. Depois de alguns vários Natais (frustrados) na bagagem, e de uns tempos para cá, tenho me assumido menos ‘natalesca’ e mais coerente com os meus pensamentos. Prefiro plantar sementes de gentileza ao longo do ano a vê-la materializada e comercializada na troca de presentes caros. Para quê, para quem?

Há quem chie, é lógico, mas quem disse que não há de se pagar um preço pela autenticidade?

PS. A linda árvore de Natal que ilustra essa postagem é obra criativa da Ana Castilhos, da MUKIFUchic, de quem sou mega fã.

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Thursday, 10 December 2009

Zen, zen, zen



"Viva o momento presente. O passado já se foi e o futuro ainda não existe. O aqui e agora é a única realidade.


Deu o que falar:a frase acima, citada no site da Bons Fluidos entre as 15 dicas pra se tornar mais 'zen' www.bonsfluidos.abril.com.br/livre/xtra/2/novo/index.shtml,
arrebentou em popularidade entre as minhas amigas e foi até parar no orkut.

Será mesmo que as pessoas estão transitando, perdidas e ansiosas, entre o passado e o futuro, sem se darem conta da preciosidade desse agora?

A meditação da atenção focada costuma fazer maravilhas nesse sentido: ela concentra a atenção do indivíduo naquilo que se está fazendo no exato instante do pensamento, levando-o a celebrar os tons, os cheiros, o sabor e a textura dos entornos,como uma sábia tentativa de levá-lo a apreciar o aqui e o agora.

Para os iniciantes na meditação como eu, uma sugestão de leitura: Meditação Andando, do monge vietnamita Thich Nhat Hanh, que explica direitinho como centrar sua atenção no momento presente. Para mim, fez uma diferença enorme e foi um divisor de águas na minha compreensão sobre a meditação.

E como dizem os budistas, que todos os seres sencientes possam se beneficiar de momentos de tranquilidade e paz. É disso que estamos precisando mais.

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Monday, 26 October 2009

Momentos de Silêncio.


Respeito meus momentos de silêncio como quem respeita a si mesmo. São esses intervalos que me permitem voltar inteira, com algo valoroso a dizer. E hoje, nesse começo de semana, a última de outubro, meu pensamento está voltado para a idéia da morte. Mas não como algo fúnebre, temido, aterrorizante. Como um evento que rompe, bruscamente, com um ciclo que julgávamos ser eterno ou quase isso. Nos últimos dois meses, perdi duas pessoas amigas, curiosamente semelhantes. Uma aos 30 outra aos 60, mas tão cheias de vida que seriam, em meu pretenso palpite, das últimas que eu veria despedir-se dessa vida. Viviam em lugares distintos e receberam, ambas, o anúncio da morte meio a suas atividades cotidianas, de repente e de surpresa, sem muito tempo para preparar-se. E alguém se prepara para morte? Sorrateira, ela assim aparece, sem nenhum aviso prévio, nos lembrando de não há preparação que anuncie sua chegada. Aprendemos todos nós, quem vai e quem fica, pelo medo do instante chegar e não termos mais tempo de fazer tudo aquilo que queremos. Nossos planos, nossos desejos, nossos carinhos, os amores e horrores que espalhamos por uma vida, tudo isso de esvai em questão de segundos e se para bom entendedor, meia palavra realmente basta, que façamos agora e já tudo aquilo que queremos, sonhamos e desejamos. Nascemos a cada dia e é por isso que estar aqui já vale a pena.

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Monday, 17 August 2009

Entre ciclos e crises



Não entendo realmente porque a palavra crise toma, para a maioria de nós, uma conotação tão negativa.
Crise é o tempo em que a mente - e o corpo, por que não? - pedem um descanso para refletir sobre velhas crenças, chorar pelos tropeços, abandonar antigos padrões.
Descobri que a palavra crise vem do latim e tem o mesmo sentido da palavra vento. Vento, que lindo!
Existe algo mais transitório do que o vento?
Isso mesmo, cada uma de nossas crises se converte em uma tempestade ventosa que não apenas nos faz sentir, refletir, amadurecer, mas também nos prepara para um ciclo novinho em folha, mais forte, mais estável, mais equilibrado. É justamente a crise que não nos deixa incorrer no mesmo erro, que nos desvia dos caminhos espinhosos que uma vez percorrermos.
A crise nada mais é senão a tempestade antes da bonança, a inevitável e imperdível oportunidade para o crescimento pessoal, para a construção de nossas auto-defesas, nossos anticorpos emocionais.
Não dá mesmo para fugir das crises, por que além de tudo, elas chegam sem pedir licença, nos visitam sem aviso prévio.
Sabendo disso, vou aprendendo a lidar com minhas crises, conhecendo suas causas, abraçando suas consequências.
Enquanto isso, vou deixando que esse vento sopre, ora suave, ora forte, sob minha vida, levando embora velhos hábitos que não me servem mais, para renascer outra, mais madura e experiente, sabendo desviar daquelas antigas pedras que costumava encontrar pelo caminho.

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Wednesday, 29 July 2009

Quanto vale o preço da liberdade?

"A felicidade só se torna de fato real quando compartilhada"

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Dificilmente vou esquecer esse filme.

É um daqueles que ficam registrado para sempre na memória, que marcam e nos fazem refletir sobre o preço de determinadas escolhas. Nesse caso, a liberdade a qualquer custo, o desejo de transgressão, o querer fazer (e sentir) diferente, ir contra às velhas normas (pré) estabelecidas socialmente.

A história verídica de Christopher McCandless - o andarilho supertramp - me remeteu a deliciosa sensação de liberdade que sinto cada vez que estou no mundo, por aí, de mochila nas costas, sem lenço tampouco documento, sem registro, nome nem identidade, apenas mais uma, leve e solta no universo, em contato com a natureza.

É quando me sinto mais humana, mais próxima de Deus e da verdadeira essência de estar aqui, de passagem pela Terra.

Contudo, a trajetória inconsequente de Chris rumo ao Alaska me fez perceber que nada disso faz muito sentido se não temos como referencial o outro, se não consideramos o papel essencial que as relações humanas desempenham em nossa vida. Voltar as costas para isso é inútil.

Liberdade, desejo de aventura e trangressão a uma sociedade essencialmente materialista não me parecem sentimentos legítimos sem a valorização dos vínculos afetivos, aqueles que dão realmente sentido à nossa existência.

Recomendo de verdade esse filme.

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Sunday, 5 July 2009

[Amigos] "precisam de tempo e de intimidade; (...) não podem se conhecer sem que tenham comido juntos a quantidade necessária de sal".



Aristóteles, filósofo grego (384-322 a.C.)

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"O que você está esperando? Saia um pouco da sua página virtual, pare de bisbilhotar a dos outros, dê um tempo nas conversinhas que só pontuam o vazio da existência e vá viver mais".

"A internet é muito boa para administrar amizades já existentes, garantindo sua continuidade mesmo a grandes distâncias, mas é ruim para criar do zero relações de qualidade"

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Essas são algumas das frases que me chamaram mais a atenção na matéria publicada pela revista Veja desta semana, sobre a solidão virtual: http://veja.abril.com.br/080709/nos-lacos-fracos-internet-p-94.shtml.

Eu já suspeitava, mas o estudos apontados na matéria confirmam que a Internet não preenche o vazio provocado pela chamada solidão emocional, aquela que nos faz querer poder ter alguém com quem contar nas horas mais difíceis de nossas vidas. Se por um lado a Internet preenche a chamada solidão social, aquela que parece nos dar a impressão de termos os 500 amigos enumerados nos Orkuts da vida, provocando em nós a sensação de pertença a um grupo ou comunidade, ela não diminui em absoluto a verdadeira solidão, aquela primeira, preenchida
apenas pelos chamados laços fortes, constituídos pelas amizades verdadeiras, de carne e osso, construídas ao longo do tempo, e bem depois de se comer muito sal juntos, como sabiamente disse Aristóteles.

Segundos os estudos, é humanamente impossível se administrar 1000 amizades ao mesmo tempo. Está mais do que comprovado que o "
número máximo de pessoas com quem cada um de nós consegue manter uma relação social estável é, em média, de 150, segundo o antropólogo inglês Robin Dunbar, um dos mais conceituados estudiosos da psicologia evolutiva". Palavras da Veja.

É bem verdade que a Internet tem lá suas (várias) vantagens, reconheço: re-estabelecer contatos de infância, facilitar oportunidades de trabalho, diminuir a distância entre pessoas que se conhecem e se amam, mas quando o assunto é qualidade e não quantidade, convenhamos: nada substitui o olho no olho, o toque, o contato pessoal, elementos à moda antiga da relação mais primitiva e genuína da espécie humana, a amizade real.

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Thursday, 11 June 2009

Quando o amanhã nunca vem (When tomorrow never comes)


Ainda chocada com o acidente da Air France.

É preciso uma tragédia dessas acontecer para a gente se dar conta de que o amanhã pode não chegar nunca e que depende de nós, somente de nós, fazer do hoje um dia incrível, inesquecível, único.

Tive um aluno brilhante que me dizia se lembrar diariamente que iria morrer. De cara, achei macabro, mas depois entendi a moral da história: pensar que hoje pode ser último dia de nossas vidas nos dá a dimensão exata da efemeridade do momento.

Recebi esse texto retirado da revista Exame e resolvi compartilhá-lo aqui com vocês.

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Aí um dia você toma um avião para Paris, a lazer ou a trabalho, em um vôo da Air France, em que a comida e a bebida têm a obrigação de oferecer a melhor experiência gastronômica de bordo do mundo, e o avião mergulha para a> morte no meio do Oceano Atlântico.


Sem que você perceba, ou possa fazer qualquer coisa a respeito, sua vida acabou.



Numa bola de fogo ou nos 4 000 metros de água congelante abaixo de você naquele mar sem fim. Você que tinha acabado de conseguir dormir na poltrona ou de colocar os fones de ouvido para assistir ao primeiro filme da noite ou de saborear uma segunda taça de vinho tinto com o cobertorzinho do avião sobre os joelhos.



Talvez você tenha tido tempo de ter a consciência do fim, de que tudo terminava ali. Talvez você nem tenha tido a chance de se dar conta disso. Fim.



Tudo que ia pela sua cabeça desaparece do mundo sem deixar vestígios.


Como se jamais tivesse existido.


Seus planos de trocar de emprego ou de expandir os negócios. Seu amor imenso pelos filhos e sua tremenda incapacidade de expressar esse amor.

Seu medo da velhice, suas preocupações em relação à aposentadoria.

Sua insegurança em relação ao seu real talento, às chances de sobrevivência de suas competências nesse mundo que troca de regras a cada seis meses.

Seu receio de que sua mulher, de cuja afeição você depende mais do que imagina, um dia lhe deixe. Ou pior: que permaneça com você infeliz, tendo deixado de amá-lo.


Seus sonhos de trocar de casa, sua torcida para que seu time faça uma boa temporada, o tesão que você sente pela ascensorista com ar triste. Suas noites de insônia, essa sinusite que você está desenvolvendo, suas saudades do cigarro. Os planos de voltar à academia, a grande contabilidade (nem sempre com saldo positivo) dos amores e dos ódios que você angariou e destilou pela vida, as dezenas de pequenos problemas cotidianos que você tinha anotado na agenda para resolver assim que tivesse tempo.



Bastou um segundo para que tudo isso fosse desligado. Para que todo esse universo pessoal que tantas vezes lhe pesou toneladas tenha se apagado. Como uma lâmpada que acaba e não volta a acender mais. Fim.



Então, aproveite bem o seu dia. Extraia dele todos os bons sentimentos possíveis.

Não deixe nada para depois. Diga o que tem para dizer. Demonstre. Seja você mesmo. Não guarde lixo dentro de casa. Não cultive amarguras e sofrimentos. Prefira o sorriso. Dê risada de tudo, de si mesmo. Não adie alegrias nem contentamentos nem sabores bons. Seja feliz. Hoje. Amanhã é uma ilusão. Ontem é uma lembrança. No fundo, só existe o hoje.


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por Adriano Silva, para a Revista Exame de 04/06/2009.




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Friday, 17 April 2009

O Aniversário do Tarzan


Num dado Dia do Índio, 64 anos atrás, nascia meu pai Gilberto.
A vida foi sábia com esta data, meu pai amava a natureza, o cheiro de terra, de mato, os bichos, traços que herdei e que só vim me dar conta agora, quase ontem.

Convivemos pouco, mas o suficiente para me fazer lembrar o quanto meu pai amava a vida. Era intenso como eu e acho que gente assim sente mesmo que vai embora logo, por isso trata de aproveitar e não deixar para amanhã, com medo de que esse amanhã não chegue nunca. Assim fez meu pai, e sorveu cada instante de sua breve existência.

Engraçado como a vida vai apagando os detalhes, aos poucos a memória vai esfumaçando e de saudade virando lembrança, e daí a apagar-se de vez é um salto.
Ainda bem que existe a música, os cheiros, os sons, os gostos, dispositivos voluntários que acionamos cada vez que queremos apurar a memória de alguém que se foi.

Às vezes basta nada, basta um susto e lá vem ela, toda faceira, a dona lembrança.
Sem pedir licença, sem pedir ‘por favor, posso fazer uma visitinha’?
Simplesmente aparece.

E hoje foi assim, lembrei de meu pai.

Se fecho os olhos, posso ouvi-lo aqui pertinho, numa era pré-forró, gritando ‘Nana, filha, venha tomar esse copo de mastruz com leite antes de ir para escola, para ficar forte e imune a gripes e resfriados’. Arghhhhhhh, o sabor ainda trava minha garganta.

Mais um pouquinho e me vem o cheiro de um perfume que só meu pai usava, um tal de... qual era mesmo o nome do perfume? Enquanto as palavras me faltam, me sobram sensações ao rememorar, vividamente, a sua imagem e a minha, de sabonete em punho e alegria no rosto, esfregando freneticamente o corpo ao cantarolar uma canção, a nossa canção, aquela em que meu pai-herói se fazia de Tarzan e promovia uma verdadeira festa na floresta. Era década de 80, e a musiquinha, dos Originais do Samba, era essa:
Quando eu entrei na mata,
Bebi água na cascata,
Era uma linda manhã, que manhã, que manhã
Os macacos pulavam em festa,
Era aniversário do Tarzan.
O Príncipe Lothar e o Mandrake,
Chegaram com o Fantasma Voador,
Tudo era alegria.
O zorro chegou beijando o sargento Garcia,
A Mônica com aquele jeitinho que só ela tem,
Bateu no Cascão e no Anjinho também,
E fez o Cebolinha cantar parabéns.

São versinhos que me fazem chorar até hoje, aos 31 anos de idade, e me sentir de novo a menininha que adormecia, protegida, em cima da pança redonda e divertida de seu pai-Tarzan.

Por muito tempo, meu pai foi o Mussum, dos Trapalhões, por que era dele a voz mais grave da festa na floresta, o título de mestre-sala da batucada do botequim, a gargalhada que ecoava pelos corredores da vida, pelas piadas contava sem ensaiar, por tinha doutorado sem saber, diploma de doutor da mais autêntica expressão de vida já conheci.

Por isso hoje, 17 anos depois, sem razão aparente, dona lembrança resolveu aparecer para me pedir uma homenagem, uma justa homenagem ao meu pai Gilberto, movida pelo doce apelo de uma terna lembrança que me convida, a entoar baixinho, aquela canção, pai, a nossa canção:

Nesta rua, nesta rua
Tem um bosque
Que se chama, que se chama
Solidão
Dentro dele, dentro dele
Mora um anjo
Que roubou, que roubou
Meu coração

***
Uma homenagem ao dia do Índio, ao seu dia, pai, quando resolvi, finalmente, lhe fazer uma visita.
Da filha que te ama, sempre,
Nana

***

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Wednesday, 15 April 2009

Sobre as coisas que aprendi em casa


Pedir desculpa, dizer muito obrigada, com licença, respeitar os mais velhos.

Isso foi apenas a lição numero 1 do que aprendi lá em casa. O que sei que é há muito mais que isso no convívio das gentilezas sociais.
Existe uma questão de respeito que não se aprende nos livros. Algo que remete a si próprio e aos outros “fazer aos outros o que gostaria que fizessem a si próprio”, ecoa a voz de minha mãe, mais firme do que nunca em repassar aos filhos esse legado da boa-educação.
Sou grata a ela por isso.
Ganhou A com louvor em repassar aos seus lições valiosas que parecem ir desaparecendo nos círculos sociais com o passar do tempo e a correria da vida moderna. Falta parar para ouvir, olhar nos olhos, agir com respeito, tolerância, delicadeza.
Ah, essa boa e velha tolerância, como anda escassa!
Estressados, estamos explodindo à toa, correndo sem rumo, nem sabemos ao certo para onde nem porquê.
Uma palavra mal-intencionada soprada, e lá se vão, plumas ao vento de um estrago que não volta atrás. E como andamos fofoqueiros ultimamente!
Ruminamos internamente nossos pensamentos mais nocivos, sem nos darmos conta que esses vão, aos poucos, alimentando o ego e uma ferida interior que culmina em uma explosão muitas vezes direcionada a quem menos devíamos.
Falta parar para pensar sobre tudo isso. Refletir.
Se dói? Dói, sim, principalmente a consciência. Mas vale a pena. Nos sentimos mais aliviados em saber que estamos caminhando rumo à evolução espiritual.
Por isso e por tudo, mais do que pertinente compartilhar aqui o que andei ouvindo em um encontro budista do qual participei durante a Páscoa.

São quatro os pensamentos sobre os quais devemos meditar/contemplar diariamente, a fim de neutralizar os chamados venenos da mente:

1- a preciosidade de estarmos aqui e termos nascido e como fazer bom uso dessa ‘visita’ aqui na Terra;
2 - a impermanência de tudo que nos cerca, o que ajuda a desapegar;
3- o karma, porque somos o que somos e o que podemos fazer para purificá-lo;
4 - o sofrimento; devemos aceitá-lo ou evitá-lo?

Para ler mais sobre o assunto:
http://www.dharmanet.com.br/vajrayana/pensamentos1.htm

Namastê e boa semana!

***

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Wednesday, 8 April 2009

Depois da tempestade, a bonança...


Estou de volta a este blog depois de um longo e tenebroso inverno. Impressionante a experiência de ficar alguns dias sem computador para se dar conta do nível de dependência a que chegamos. Fcamos órfãos, nos sentimos sem os pés, sem as mãos, não conseguimos trabalhar.

Desconectados, sentimos um vácuo que não existia alguns anos atrás, tempo que preenchíamos nossos vazios existenciais com atividades reais, o que fazíamos mesmo? Como vivíamos sem isso aqui?

Uma tonelada de emails me esperando na caixa de entrada, mil outros prazos acumulados a cumprir, preciso comentar sobre o calor infernal que faz nesta cidade tropical do Nordeste do Brasil, num mês que pelo menos para mim, começou às avessas, tumultuado, cheio de desafios. Dias melhores virão, estou certa disso.

Penso que tanto calor anda fritando também a cabeça das pessoas, que estão por demais intolerantes umas com as outras, sem paciência mesmo.

Deixo vocês com a música-poesia de Lenine, que soube, como ninguém, sintetizar esse meu, esse nosso momento pavio-curto em tempos de calor escaldante.


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Sunday, 22 March 2009

O jardim aqui dentro


Normalmente escrevo primeiro o texto para só então buscar uma imagem que ilustre o que quis dizer. Hoje, antes de escrever, já sabia que imagem usar.

Talvez porque me fujam palavras nesse silencioso domingo de março.
Talvez porque essas flores bastem para expressar tudo o que sinto, essa minha vontade de calar para re-descobrir a mim mesma.
Talvez porque hoje, assim, taciturna, eu queira repartir com você esse meu silêncio que não é nem de tristeza nem de dor, mas de uma vontade de me ouvir por dentro e de ir buscar aquilo que o destino possa ter reservado lá na frente.
Talvez porque saiba, no fundo, que me faltam paciência e resignação para saber esperar.
Porque sei, claro que sei, que existe um tempo de plantar e de colher, embora eu, ansiosa, queira garantias de estar aqui para ver os frutos brotarem e florescerem.
Ciente e disciplinada, tento entregar-me à meditação do aqui e agora, procurando perceber cada instante em sua plenitude e beleza, sem ater-me as distrações entre o que já se foi e o que virá.
A única certeza é que não quero ver a vida passar, mas tenho sempre a impressão que ela cintila é lá fora, no jardim ao lado, e não aqui dentro, onde estou.
Por essa minha absurda urgência de viver, pela intensidade a que me entrego as experiências da vida, é que hoje me reservo ao direito de calar para observar essas flores.
Onde estarão essas margaridas?
{i} {i} {i} {i} {i} {i} {i} {i} {i} {i} {i} {i}

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Sunday, 15 March 2009

O que faz você feliz?

Gosto do logo daquela propaganda bem bolada que sugere pararmos um pouco esse ritmo frenético que vivemos para evocar momentos que nos fazem felizes.
Resolvi fazer o mesmo, e eis que elenquei as top 10 atitudes que me fazem mais feliz para lembrar principalmente nas horas de desânimo e de tristeza.
O que me faz FELIZ? Isso aqui ó:
1. Pedalar ao ar livre;
2. Planejar uma viagem e realizá-la;
3. Beijar na boca, namorar;
4. Tomar sorvete de cajá;
5. Almoço em família aos domingos, casa cheia e barulhenta e aquele prato que só minha mãe fazer (ok, ok, a sua também...) ;o)
5. Viajar de avião e ver o mundo bem pequeninho lá de cima, onde os problemas parecem ínfimos;
6. Reunir com as amigas, varar a madrugada tricotando;
7. Assombrar-me com a perfeição e magnitude da natureza;
8. Rir até chorar;
9. Ouvir aquela música linda que ainda me faz arrepiar e cantar, cantar e cantar (e não ter a vergonha de ser feliz!);
10. Comer manjar de côco em dia de aniversário;
11. Conseguir comunicar claramente minhas idéias mais esdrúxulas em outro idioma;
12. Dançar até suar;
Passei dos 10! Tem tanta coisa...:o) -- Bom domingo, boa semana!
****
E você, o que te faz FELIZ?

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Sunday, 8 March 2009

Ensaios sobre a solidão


Solidão é fundamental
por Hilda Lucas

......
Que me desculpem os desesperados, mas solidão é fundamental para viver.

Sem ela não me ouço, não ouso, não me fortaleço.

Sem ela me diluo, me disperso, me espelho nos outros, me esqueço. Não penso solto, não mato dragões, não acalanto a criança apavorada em mim, não aquieto meus pavores, meu medo de ser só.

Sem ela sairei por aí, com olhos inquietos, caçando afeto, aceitando migalhas, confundindo estar cercada por pessoas com ter amigos.
Sem ela me manterei aturdida, ocupada, agendada só para driblar o tempo e não ter que me fazer companhia.
Sem ela trairei meus desejos, rirei sem achar graça, endossarei idéias tolas só para não ter que me recolher e ouvir meus lamentos, meus sonhos adiados, meus dentes rangendo.
Sem ela, e não por causa dela, trocarei beijos tristes e acordarei vazia em leitos áridos.
Sem ela sairei de casa todos os dias e me afastarei de mim, me desconhecerei, me perderei.

Solidão é o lugar onde encontro a mim mesma, de onde observo um jardim secreto e por onde acesso o templo em mim.

Medo? Sim. Até entender que o monstro mora lá fora e o herói mora aqui dentro.

Encarar a solidão é coisa do herói em nós, transformá-la em quietude é coisa do sábio que podemos ser.

Num mundo superlotado, onde tudo é efêmero, voraz e veloz a solidão pode ser oásis e não deserto.
Num mundo tão estressado, imediatista, insatisfeito a solidão pode ser resgate e não desacerto.
Num mundo tão leviano, vulgar, que julga pelas aparências e endeusa espertalhões, turbinados, boçais a solidão pode ser proteção e não contágio.
Num mundo obcecado por juventude, sucesso, consumo a solidão pode ser liberdade e não fracasso.
Solidão é exercício, visitação. É pausa, contemplação, observação. É inspiração, conhecimento. É pouso e também vôo. É quando a gente inventa um tempo e um lugar para cuidar da alma, da memória, dos sonhos; quando a gente se retira da multidão e se faz companhia.

Preciso estar em mim para estar com outros. Ninguém quer ser solitário, solto, desgarrado. Desde que o homem é homem, ou ainda macaco, buscamos não ficar sozinhos. Agrupamo-nos, protegemo-nos, evoluímos porque éramos um bando, uma comunidade. Somos sociáveis, gregários.

Queremos amigos, amores. Queremos laços, trocas, contato. Queremos encontros, comunhão, companhia. Queremos abraços, toques, afeto.

Mas, ainda assim, ouso dizer: é preciso aprender a estar só para se gostar e ser feliz. O desafio é poder recolher-se para sair expandido. É fazer luz na alma para conhecer os seus contornos, clarear o caminho e esquecer o medo da própria sombra.

Ouse a solidão e fique em ótima companhia.

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Thursday, 5 March 2009

Se sabe, não fale

Então tá. A formula é essa, anote aí:

Se sabe, fica quieta. Se viajou, esconda. Se é extrovertida demais, se contenha. Cale, não fale. Mostre-se frágil, tímida e discreta.

Esconda seus títulos, suas conquistas, seu cérebro.

Se é para conquistar, a receita é simples: não mostre o que sabe.

Os homens tem medo disso, de mulheres inteligentes, mais articuladas do que eles. Precisam sentir-se necessários, fortes, provedores.

Então tá combinado. Você conhece um cara e rola uma química incrível. Vocês conversam, trocam idéias, descobrem que tem muito mais em comum do que imaginavam. Viram parceiros de alma e Varam a madrugada conversando, até altas horas da manhã, quando percebem que o dia já a amanheceu e vocês nem se deram conta disso.

Combinam de se encontrarem à noite, na festa daquele amigo, ali mesmo, na praia.

Ansiosa, você capricha na produção, mais não exagera, por que sabe, esse não é mais o foco.

Então a noite chega, você dá de cara com ele, já na festa, acompanhado por uma loura, alta, linda, uma top model em potencial. Quase muda, ela só sorri, e concorda, sempre, balançando a cabeça, em afirmativo, para tudo que ele diz. Lá estão eles, um belo casal, feitos um para o outro.

E você, de longe, observa, respira fundo e sim, resolve se aproximar, cumprimentando, com o mais amarelo dos sorrisos e pedindo ao além, para rápido, muito rápido, te mandar aquela cara blasé que você tira do armário toda vez que quer fingir que não está nem aí. Parece funcionar. Alguns minutos depois, você e ela, a tal loura, já viraram melhores amigas e descobriram que freqüentam a mesma academia, tem o mesmo guru espiritual e já combinam uma viagem juntas nas próximas férias.

Mas lá dentro, no fundo, você sabe como está. Mas uma vez, perdeu o papel de atriz principal da historia, nos 46 do segundo tempo. Mas uma vez, virou coadjuvante.

Fazer o que? A vida é assim mesmo.

Porque que tem que ser assim? Será que um dia conseguirá ser apenas você mesmo, sem máscaras, simples, ao natural, sem medo de que lhe tirem o papel principal no próximo capitulo da novela?

Os anos passam e você ainda, ali, em flashback com as mesmas sensações, queimando os neurônios para entender – vai entender – o que rola na cabeça dos homens, para tentar fechar os cálculos dessa fórmula mágica e inexplicável da conquista.

Alguém se habilita a ajudar?

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Sunday, 22 February 2009

Devaneios de carnaval

Juro que queria ser mais animada. Morro de inveja daquelas pessoas que saem, em tempos de festa, a correr atrás do trio elétrico, cantando, dançando, fazendo coreografia, mortas de animação e só param mesmo no dia seguinte. Acho lindo, mas acredito que nasci com uma de minhas baterias descarregadas. Que péssima brasileira foliã soy yo.
Mas isso não é de hoje. Demorei para reconhecer, mas sei desde pequena, sempre fui mais para observadora e analítica do que propriamente participante em eventos como carnaval, folia de rua ou coisa parecida.
Continuo dizendo que não perco a chance de ver, de cima, de camarote e acenar para quem está lá embaixo, se jogando lindamente. Mas não, não sou desse time. Não curto multidão, nem música alta, nem cheiro de cigarro e cerveja derramada em minha roupa limpa. Sou fresca, assumo, em mea culpa. Prefiro os pequenos encontros, intimistas, em que se pode ouvir a voz do outro, baixinho, provocando reações, impressões, outro tipo de emoção. Minha folia é essa.
Festas de rua como carnaval são verdadeiramente lindas, mas não consigo desligar o meu dispositivo de investigadora a tentar descobrir a razão que move tanta energia humana simultaneamente a fazer exatamente a mesma coisa e sentir igual, como se num passar de mágica, fossem movidos por uma descarga elétrica que pronto, agora, a partir desse instante, seremos todos felizes desde já, a tal alegria em massa e se você não está na onda, cai fora, diz a música e é automaticamente excluído do grupo.
Não sei, acredito mais na individualidade do ser, no quando e como vou decidir me sentir feliz, só eu e por mim mesma.
Bom, já falei sobre isso no ano novo e claro, não vou viajar na maionese nem estragar o seu carnaval. Eu vou pra praia meditar.
E para você, caro leitor, boa folia!

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Sunday, 18 January 2009

Destinazione Paradiso


Mas porque a Patagônia? – perguntava-me alguém, atônito com o destino para lá de exótico.

És a primeira pessoa que conheço que deseja passar o verão na Patagônia, a tremer de frio...- dizia-me outro, também surpreso com a escolha.

Sou mesmo movida pela intuição e desde que este convite me fora feito, não pensara duas vezes: voltaria a ser mochileira, como nos velhos tempos, a desbravar terras desconhecidas, a decodificar um idioma que não domino, acompanhada por uma gente que mal conheço.

Corajosa? Nem tanto. Por trás de uma aparente bravura, há um desejo sobre-humano de ultrapassar os próprios limites, ir além da zona de conforto e abandonar as velhas certezas.Velhas certezas que acomodam, paralisam e nos fazem crer que o certo é terreno mais fértil do que o duvidoso.

Ouvira dizer que em poucos lugares na Terra, poderia o ser humano aperceber-se de sua própria insignificância, tamanha era a magnitude da natureza naquele lugar.

Sendo assim, estava de malas prontas não rumo a um destino inóspito, exótico, excêntrico. Estava, sim, pronta a trilhar o caminho em busca de si mesma, a re-encontrar-se consigo no silêncio inquebrantável de um lugar aonde apenas a natureza fala – e cala.

Porque se não for assim, terei ao fim de cada dia de minha vida, defronte ao espelho, aquela velha conhecida de sempre, que ao ver-se refletida, mesmo de cabelo ou roupa nova, sente ter desperdiçado por pura covardia mais uma chance de viver plenamente, de ir além de seus medos, para então descobrir-se mais forte, mais inteira, mais humana.

Por que se não for assim, não saciarei essa minha fome de vida, essa urgência que me faz crer que posso – e devo – gastar um pouco mais da generosa cota de vida que o destino me oferta.


Até a volta!

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Destinazione Paradiso é o título de uma música italiana que mais ouço em meu rádio nas últimas semanas. Sua letra diz que "Uma viagem só tem sentido sem retorno, se não em vôo, sem parada,nem confins, apenas horizontes nem que sejam bem distantes". Ecco.

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