Sunday, 18 January 2009

Destinazione Paradiso


Mas porque a Patagônia? – perguntava-me alguém, atônito com o destino para lá de exótico.

És a primeira pessoa que conheço que deseja passar o verão na Patagônia, a tremer de frio...- dizia-me outro, também surpreso com a escolha.

Sou mesmo movida pela intuição e desde que este convite me fora feito, não pensara duas vezes: voltaria a ser mochileira, como nos velhos tempos, a desbravar terras desconhecidas, a decodificar um idioma que não domino, acompanhada por uma gente que mal conheço.

Corajosa? Nem tanto. Por trás de uma aparente bravura, há um desejo sobre-humano de ultrapassar os próprios limites, ir além da zona de conforto e abandonar as velhas certezas.Velhas certezas que acomodam, paralisam e nos fazem crer que o certo é terreno mais fértil do que o duvidoso.

Ouvira dizer que em poucos lugares na Terra, poderia o ser humano aperceber-se de sua própria insignificância, tamanha era a magnitude da natureza naquele lugar.

Sendo assim, estava de malas prontas não rumo a um destino inóspito, exótico, excêntrico. Estava, sim, pronta a trilhar o caminho em busca de si mesma, a re-encontrar-se consigo no silêncio inquebrantável de um lugar aonde apenas a natureza fala – e cala.

Porque se não for assim, terei ao fim de cada dia de minha vida, defronte ao espelho, aquela velha conhecida de sempre, que ao ver-se refletida, mesmo de cabelo ou roupa nova, sente ter desperdiçado por pura covardia mais uma chance de viver plenamente, de ir além de seus medos, para então descobrir-se mais forte, mais inteira, mais humana.

Por que se não for assim, não saciarei essa minha fome de vida, essa urgência que me faz crer que posso – e devo – gastar um pouco mais da generosa cota de vida que o destino me oferta.


Até a volta!

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Destinazione Paradiso é o título de uma música italiana que mais ouço em meu rádio nas últimas semanas. Sua letra diz que "Uma viagem só tem sentido sem retorno, se não em vôo, sem parada,nem confins, apenas horizontes nem que sejam bem distantes". Ecco.

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Friday, 16 January 2009

Human Family

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Há alguns anos li um texto chamado Human Family que me tocou muitíssimo. Na verdade, descobri esse texto em sala de aula, escondidinho entre as páginas de um livro pouco pretensioso de redação em língua inglesa. Mesmo não sendo muito ligada em poesia, lembro que senti uma vontade enorme de ler o texto em voz alta, talvez intimada pelo seu título ou quem sabe, por suas duas últimas estrófes que gritavam para ser lidas: “We are more alike, my friends, than we are unalike” (“Somos mais semelhantes, meus amigos, do que diferentes”).
Hoje, graças ao Sr. Google, decidi revisitar esse texto na Internet – nem me lembrava do título, só das últimas duas estrofes – e descobri que seus créditos pertencem à octogenária Maya Angelou, escritora norte-americana e ativista dos direitos civis.
É um texto bem oportuno em tempos de conflitos na Faixa de Gaza, dessa intolerância exacerbada e descabida que alimentamos em relação as nossas diferenças culturais, políticas, religiosas, individuais.
“Somos mais semelhantes, meus amigos, do que diferentes”, termina Maya, cujo nome, curiosamente quer dizer ‘ilusão’ em hindu. A ilusão de nos julgarmos diferentes entre si.

Por que em essência, buscamos a mesma coisa. Ricos, pobres, intelectuais, iletrados, orientais, ocidentais, muçulmanos, cristãos, judeus, budistas. Estamos atrás do mesmo tesouro, aquele escondido dentro de nós mesmos, que só nós, mais ninguém, podemos desencavar.
E observando os vários de nós espalhados por diversos lugares do mundo, chego à conclusão de que vivemos atrás DISSO aqui: ser feliz, gozar, viver experiências universais como o amor, o sexo, a amizade, a intimidade, a cumplicidade, a indulgência. E não há, por mais que se tente, um único de nós que nunca tenha chorado, sofrido, deprimido, amado, acertado, errado. Vivido.
Porque habitamos o mesmo barco que nos conduz através desta viagem chamada vida. E isso nos une. E sem ilusões, Maya, nos torna incontestavelmente semelhantes.
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Como silenciar diante de tanta dor em meio aos conflitos na Palestina? Como calar diante uma foto como esta? Ignorar? Fingir que nada que não é consigo?
Deixo registrado em meu blog hoje minha indignação e total perplexidade diante de cenas como esta.
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Human Family (Maya Angelou)

I note the obvious differences in the human family.

Some of us are serious, some thrive on comedy.
Some declare their lives are lived as true profundity, and
others claim they really live the real reality.
The variety of our skin tones can confuse, bemuse,
delight, brown and pink and beige and purple, tan and
blue and white.
I've sailed upon the seven seas and stopped in every land.
I've seen the wonders of the world, not yet one common man.
I know ten thousand women
called Jane and Mary Jane, but I've not seen any two who really were the same.
Mirror twins are different although their features jibe, and
lovers think quite different thoughts while lying side by side.
We love and lose in China, we weep on England's moors, and laugh and moan in Guinea, and thrive on Spanish shores.
We seek success in Finland, are born and die in
Maine. In minor ways we differ, in major we're the same.
I note the obvious differences between each sort and type, but we are more alike, my friends than we are unalike.
We are more alike, my friends, than we are unalike.

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Wednesday, 14 January 2009

O Grito, por Martha Medeiros


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Não sei o que está acontecendo comigo, diz a paciente para o psiquiatra.
Ela sabe.
Não sei se gosto mesmo da minha namorada, diz um amigo para outro.
Ele sabe.
Não sei se quero continuar com a vida que tenho, pensamos em silêncio. Sabemos, sim.
Sabemos tudo o que sentimos porque algo dentro de nós grita. Tentamos abafar este grito com conversas tolas, elocubrações, esoterismo, leituras dinâmicas, namoros virtuais, mas não importa o método que iremos utilizar para procurar uma verdade que se encaixe nos nossos planos: será infrutífero. A verdade já está dentro, a verdade se impõe, fala mais alto que nós, ela grita.
Sabemos se amamos ou não alguém, mesmo que esteja escrito que é um amor que não serve, que nos rejeita, um amor que não vai resultar em nada. Costumamos desviar este amor para outro amor, um amor aceitável, fácil, sereno. Podemos dar todas as provas ao mundo de que não amamos uma pessoa e amamos outra, mas sabemos, lá dentro, quem é que está no controle.
A verdade grita. Provoca febres, salta aos olhos, desenvolve úlceras. Nosso corpo é a casa da verdade, lá de dentro vêm todas as informações que passarão por uma triagem particular: algumas verdades a gente deixa sair, outras a gente aprisiona. Mas a verdade é só uma: ninguém tem dúvida sobre si mesmo.
Podemos passar anos nos dedicando a um emprego sabendo que ele não nos trará recompensa emocional. Podemos conviver com uma pessoa mesmo sabendo que ela não merece confiança. Fazemos essas escolhas por serem as mais sensatas ou práticas, mas nem sempre elas estão de acordo com os gritos de dentro, aquelas vozes que dizem: vá por este caminho, se preferir, mas você nasceu para o caminho oposto. Até mesmo a felicidade, tão propagada, pode ser uma opção contrária ao que intimamente desejamos. Você cumpre o ritual todinho, faz tudo como o esperado, e é feliz, puxa, como é feliz. E o grito lá dentro: mas você não queria ser feliz, queria viver!
Eu não sei se teria coragem de jogar tudo para o alto.
Sabe.
Eu não sei por que sou assim.
Sabe.


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Texto em homenagem a todos aqueles que vão na contramão das convenções, por reconhecer e respeitar os seus desejos mais íntimos.
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O Grito é também o título de uma pintura expressionista do norueguês Edvard Munch, datada de 1843. Já participei de um espetáculo de dança (como bailarina) que tinha essa obra como pano de fundo. Marcante.
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Friday, 9 January 2009

Nós 5

Tenho quatro amigas inseparáveis: Bia, Bella, Fábia e Dani, minha estimada xará que tanto amo e admiro.
São amigas dos tempos de colégio, aquelas de uma época em que para os outros, fingíamos ser alguém para disfarçar nossas inseguranças juvenis, mas que entre nós, éramos simplesmente nós mesmas, sem títulos, contas bancárias ou sobrenomes.
Nessas idas e vindas da vida, já moramos perto, longe, muito longe e perto de novo e nunca, nunca perdemos o contato.
Hoje em dia, cada uma toca seu barco, tem seu chão, mas mantemos nosso acordo tácito de estarmos sempre em contato seja aqui ou ali, para reforçarmos esse laço que nós – não a vida –fazemos questão de preservar pelo livre e espontâneo desejo de compartilhar uma lágrima, um sorriso, uma perda, uma gargalhada.
Como os dedos de uma mão, somos bem diferentes. Mas respeitamos nossas diversidades, aceitamos nossas limitações, valorizamos nossas virtudes, vibramos com nossas conquistas.
Sinto-me privilegiada – e mais segura – em seguir meu caminho por este planeta sabendo que posso contar com essas garotas. São as irmãs que escolhi para mim.
E hoje, mesmo não sendo o Dia do Amigo, proponho um viva à amizade.


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Tuesday, 6 January 2009

O Retorno a si


Em um lugar quase inóspito, no fim do mundo, o homem busca o retorno a sua essência. Busca sua natureza mais primitiva, singela, que se perdeu no tumulto da civilização.
Lá longe, diante de tamanha magnitude, cai em si e percebe a insignificância de seus problemas, de sua vida. Especial mesmo é poder desfrutar de tamanha beleza e se sentir parte dela.
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Patagônia.
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Thursday, 1 January 2009

Felicidade Coletiva


Sinto-me pouco à vontade com momentos de alegria/histeria coletiva. A obrigatoriedade de cantar, dançar, enlouquecer, simplesmente porque é Ano Novo, Carnaval, jogo do Brasil na Copa do Mundo ou o raio que o parta, nunca me convenceu.
Ora, reservo-me o direito de sentir-me feliz porque sou e estou feliz hoje, por razões de foro íntimo e pessoal. Não quero camuflar minhas dores nem minhas feridas simplesmente porque hoje devo juntar-me ao sentimento de felicidade coletiva que impera desde as primeiras horas da manhã.
Quero reservar-me o direito de hoje silenciar para ouvir e recapitular individualmente – e solitariamente, por que não? – os momentos vivenciados por mim ao longo dos últimos 365 dias dos quais hoje me despeço e os quais a partir de amanhã passam a fazer parte de meu passado.
Não alimento, com isso, a ilusão de que uma varinha de condão tocará, como num passe de mágica, a minha realidade a partir de amanhã, tornando todos os meus sonhos realidade e dissipando todas as minhas mágoas. Esse trabalho cabe a mim, somente a mim, ir aos poucos, construindo, através de minha conduta, minhas realizações, minhas reações, meus relacionamentos.
Contudo, não deixo de assombrar-me positivamente diante dos fogos de artifício que colorem a noite da passagem do ano ao redor do mundo. É inegavelmente poderosa a vibração coletiva em torno de um objetivo comum, é possível sentir de olhos fechados o tremor provocado pela energia de tantos seres que comungam do desejo de acordar diferente no dia seguinte, voltando à pagina zero no diário de suas vidas.
Por isso, neste ano, decidi ouvir a minha voz interior e recolher-me em meu silêncio para assistir, de camarote, aos fogos de artifício da sacada de minha morada individual. Enfrentar, sem medo de parecer destoante, essa solidão necessária e brindar a chegada do novo ano em minha própria presença.
Inevitavelmente, chorei.
Porque quem sabe, lá no fundo, eu quisesse mesmo é estar ali, bem ali no meio de tanta gente, incorporada, me rendendo, irracional, ao prazer de ser mais uma, apenas um número na multidão.
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Outros links relacionados:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u64788.shtml

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