Friday, 20 February 2009

TODO Glaciares

Viajar por entre os glaciares dentro de um barco com uma estrutura invejável me remeteu a um daqueles brinquedos da Disneyworld. Ou a um passeio vip, numa embarcação luxuosa para um seleto grupo de milionários. E eu, lá, entre eles.
Não, eu não estou delirando. Como que num sonho, me vi dentro de um barco que deslizando sobre as águas gélidas do Lago Argentino, provocava um ohhhhhhhh de espanto entre seus tripulantes, embasbacados a cada glaciar que encontrávamos pelo caminho.
Como analista de imagens, acho que preferiria mil vezes recorrer a uma das minhas fotos, ciente de que por mais que tente, jamais conseguirei descrever a beleza que foi, entre um cochilo e outro, despertar entre castelos de gelo na excursão pelo TODO Glaciares. Será que esta imagem fala mais mil palavras? Tenho minhas dúvidas.

Fazia frio e chovia fininho, o céu estava cinzento, mas toda essa intempérie natural parecia realçar ainda mais a beleza daquele universo azul piscina. Cada glaciar parecia moldado pelas mãos de Deus. Assim como nenhum um de nós é igual ao outro, tamanha era a singularidade daquelas estátuas de gelo.
E a cada parada para contemplação, eu dizia baixinho para mim mesma: Deus, obrigada por me permitir estar aqui hoje, neste instante, diante disto, diante de você! E também baixinho, ouvia ele me sussurrar em resposta: Você, Dani, como boa menina que foi, fez por merecer!

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Sunday, 15 February 2009

Perito Moreno

Ao chegar no Glaciar Perito Moreno, o impacto não somente é visual, mas também sonoro. A cada retração das geleiras, um estrondo que se assemelha ao barulho do trovão mais assustador que se pode pensar. Chega a amedrontar. Mas diante de tanta beleza e magnitude, é inevitável não sentir paralisado, pequeno, minúsculo. Difícil crer que se pode capturar com os olhos e com o coração tudo aquilo que está se vendo.
Semi-derretidas, as geleiras parecem gritar ao serem derrubadas em efeito dominó nas águas do Lago Argentino. É um mar de gelo a se perder de vista, algo que hipnotiza e fascina, sendo ao mesmo tempo encantador e desolador.


Suas cores oscilam de um branco claro e límpido a um azul profundo estonteante, uma brincadeira da natureza que parece insistir para que nos coloquemos em nosso devido ínfimo lugar.
A experiência de estar diante do glaciar Perito Moreno não me deixou dúvidas quanto a existência e o amor divino. E quando, ao fim do dia, o sol pareceu querer despontar por trás do azul celestial das geleiras, senti-me dialogando silenciosamente com Deus, que não tardou em sussurrar em meu ouvido a resposta às minhas indagações, de um jeito que somente ali, naquele fim do mundo e inicio de tudo, eu seria capaz de entender.

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Thursday, 12 February 2009

A plenitude do vazio

Às vezes, quando me sentava para ler ou jogar conversa fora na sala comum a todos, em Chaltén, mesmo de costas para a janela, me virava para ver o Fitz e cair na real de onde eu estava. Era surreal estar ali, tão longe de tudo, tão perto de Deus.
E pela primeira vez na vida eu esqueci quem eu era. Talvez algum ser flutuante no mundo, solto, leve, simples assim.
Reconhecia que tinha passado e futuro e que uma impressão digital que me identificava em meio a tantos outros. Isso me garantia o senso de pertença e me dava uma certa segurança, mas só.
Durante os 15 dias em que viajei pela Patagônia, experimentei a deliciosa sensação de me afastar de meu ego e mergulhar num estado de consciência que me removia no tempo e no espaço, como que em estado de graça, dormente, para a qualquer momento acordar em casa, em João Pessoa, certa de que tudo não passou de um sonho. Um lindo sonho.
Talvez a desejada vacuidade, diriam os meus amigos budistas.
Seja lá o que for, o encanto só foi quebrado quando já em Calafate, resolvi checar o email para avisar à família da data de retorno. Aquilo teve um efeito devastador em mim. Foi como se alguém abruptamente tivesse me acordado no instante mais sublime daquele sonho bom, no exato momento em que se passa do estado alerta para o estado de graça, etéreo e lúdico. Jurei não mais fazer isso e de fato não o fiz, até o fim da viagem.

Afinal, eram férias, não?

Uma colcha de nuvens vista da janela do avião, tirada na volta para casa, momento em que, aos poucos, eu começava a recobrar a consciência e voltar à realidade. Uma pena.

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Tuesday, 10 February 2009

** Entre El Calafate e os Glaciares **


El Calafate é provavelmente a cidade mais cara da Argentina, segundo Laura. Vive essencialmente do turismo, principalmente daquele que gira em torno das excursões aos Glaciares.
Depois de uma semana em Chaltén, Calfate parece mais uma cidade grande com seus 5 mil habitantes. Foi lá que pude ter acesso aos meus emails pela primeira vez em uma semana (48!) e onde pude ter a sensação de estar de volta à civilização (arrrghhhh)
Calafate é uma cidadezinha charmosa sem ser chique, com muitos, muitos, mochileiros. Gente jovem falando os mais diversos idiomas, carregando aquelas mochilas enoormes nas costas para lá e para cá. Não se vê outras coisas nas ruas.


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Lembro da minha impressão no primeiro dia de viagem ao chegar ao centro de Calafate para pegar o ônibus até Chaltén - nunca tinha visto tanto mochileiro por metro quadrado na vida! Nada parecido, nem na Europa. Aquilo era de fato, uma backpacker’s village! E eu nem havia chegado em Chaltén ainda...Me senti a cópia mais fajuta de uma mochileira de verdade.
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Sunday, 8 February 2009

El Chaltén

Acho meio difícil alguém se apaixonar por El Chaltén à primeira vista. Há algo de decadente na estética do lugar, um aspecto de cidade em construção e destruição simultaneamente. Difícil de explicar. À primeira vista, esta minúscula cidade de 10 ruas cidade, 500 habitantes e pouco mais de 10 anos (é a mais recente de toda Argentina) - parece excessivamente árida, opaca e sem cor. Tem algo de cidade fantasma, daquelas de faroeste de filme norte-americano.

Em Chaltén, não há TV, celular não pega, telefone muito menos, o que é computador?
Gradativamente, vai-se acostumando com a dinâmica do lugar, onde o silêncio é tanto e tamanho, que ao fim de uma semana, já de volta à civilização, o menor barulho parece ecoar e ter tanto impacto que incomoda lá no fundo da alma.

Pouco a pouco, Chaltén vai virando sinônimo de aconchego para os mochileiros que, depois de um longo dia de caminhada entre montanhas de gelo, bosques e lagos, ao avistarem de longe a vila, sentem-se acolhidos pela sensação de enfim, depois de uma bem-sucedida jornada de exploração e superação, estarem de volta ao seio materno, onde habita a mais perfeita paz e onde o silêncio reina absoluto.

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Thursday, 5 February 2009

Pelos circuitos de Trekking - El Chaltén

Reza a lenda que quem prova a frutinha calafate – típica dos arbustos patagônicos – sempre voltará ao lugar. Torço mesmo para que isso seja verdade, pois a cada parada entre as longas horas de caminhada pelas montanhas de Chaltén, adocicava minha boca com essas bolinhas de cor azul-lilás, cheias de caroçinhos quase invisíveis. Faz-se de um tudo o tal do calafate: doces, geléias, licores, sorvetes. Provei todos e achei bem parecido com o açaí, embora mais cítrico e mais azedinho. Mas a flora patagônica vai muito além do calafate: flores selvagens se espalham pelas trilhas servindo de tapete para os incontáveis mochileiros que anualmente visitam Chaltén no verão ('Dani, solta, isso'! - gritava Laura. São apenas flores selvagens!!!. Apenas? São lindas! - replicava eu).Os mochileiros de Chaltén são gente de toda parte do mundo que ao topar uns com os outros em meio aos circuitos de trekking, se saúda com um caloroso hola! (às vezes sai um que tal?, mas não espere resposta!) e pronto, se estabelece ali um vínculo de camadaragem entre companheiros de caminhada que nunca haviam se visto antes mas que tem como propósito aventurar-se por montanhas, bosques e florestas para, enfim, experimentarem o êxtase de confrontar-se com imagens de uma natureza que tão exuberante chega a paralisar. Muitas vezes me perguntei o que levava tanta gente a enfrentar horas e horas de caminhada, de desconforto, de sede, de fome, de calor, de frio intenso.
Caminhadas de diferentes graus de dificuldade subindo e descendo montanhas, escorregando, machucando-se, derrapando, encharcando os pés de lama, cansando, parando, subindo e descendo novamente, sem se conseguir enxergar o final.
Com o mapa nas mãos, buscava-se o destino, que poderia ser vários: Laguna Capri? 7 quilômetros. Laguna de Los Tres? 12. Poincenot? Pode ir em frente, faltam só 4 horas. Laguna Torre? Logo ali, mais 30 minutos, que logo, logo, se transformavam em 1, 2, 3 horas (a velha noção dos 10 minutos patagônicos!)
Foi então que percebi que o que menos importava era o tal destino final. Por mais exuberante que fosse ele, o que valia mesmo era o processo, a caminhada, a busca, a superação de si mesmo.
O grande prêmio eram aquelas longas horas de caminhada silenciosa e solitária na companhia de si mesmo através da mata virgem, em contato com os próprios pensamentos, confrontando-se consigo mesmo por mais assustador que isso pudesse parecer. Qualquer som ali proferido soava no mínimo destoante e inadequado ao barulho da mata, o cantar dos pássaros, o correr das águas, o soprar do mais puro ar do planeta.
Naquela fração de segundo pude compreender verdadeiramente a razão de tanto esforço.
Vi gente subindo e descendo montanhas com um bebê amarrado na mochila nas costas – que loucura!
Vi gente tendo ataque de asma em meio a um bosque imenso.
Vi gente acampar em barracas no meio de um bosque gélido, sem banho nem o menor conforto.
Conheci gente de todo mundo que largou o emprego para estar ali, naquele momento, vivenciando a vida da forma mais plena e absoluta, explorando o mundo.
Confesso que senti inveja de tanto desapego.
Foi aí que me dei conta do quanto era uma pessoa de sorte.
Não conseguia pensar em nada, absolutamente nada que me pudesse me fazer mais feliz senão estar ali, naquele instante, com a mochila nas costas, cansada, bebendo a água gélida que, derretida dos glaciares, corria de encontro ao rio que ao atravessar o meu caminho, matava minha sede.
Minha sede de vida.

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Wednesday, 4 February 2009

Verão na Patagônia

Minha viagem à Patagônia começou por El Chaltén, destino ímpar e exclusivo, reduto desconhecido até pelos próprios argentinos, segundo minha parceirona de viagem Laura, a argentina mais gente fina que já conheci na vida. Tenho que admitir que tê-la como acompanhante durante os 15 dias de mochilão através da Patagônia argentina e chilena foi mais que um privilégio: o que mais eu poderia querer senão a presença luxuosa de alguém nativo que já havia visitado o lugar e pudesse me mostrar sem restrições o que de mais valoroso aquela natureza podia oferecer?
Seguimos de ônibus de El Calafate à El Chaltén, cerca de 4 horas de viagem pela lendária Ruta 40, a mesma que Che Guevara percorreu de motocicleta na década de 50 e que foi tão bem retratada naquele filme de Walter Salles que todos nós vimos, Diários de Motocicleta.

O cenário, apesar de árido e desértico, de nada lembra o panorama de seca das estradas do interior do nordeste. Mostras da fauna local como lhamas enormes surgem repentinamente e cruzam a estrada sem cerimônia, demarcando o território e nos lembrando que quem manda ali são elas. Isso faz com que o motorista do ônibus vá reduzindo a velocidade lentamente, para minha total apreciação e lembrança de que sim, estou muito, muito longe de casa.
Dentro do ônibus, na estrada vazia no meio deserto patagônico, me sinto como uma poeirinha integrante daquele cenário e vejo gradualmente o meu ego sendo reduzido ao seu verdadeiro tamanho, minúsculo, mas não menos importante aos olhos de Deus e do universo.
No horizonte, o vilarejo de El Chaltén desponta, espremida entre montanhas de gelo e um deserto árido e silencioso, com suas casinhas iluminadas para receber a noite, que só dá seu ar de graça por volta das 23 horas. Uma mudança e tanta para quem está acostumada a ver o sol nascer primeiro e se despedir por volta das 6 da tarde.
Naquele fim de mundo, os dias são longos e as horas parecem passar lentamente, como deveria sempre ser.
No silêncio de El Chaltén, qualquer som parece uma blasfêmia. Não há acesso à Internet, telefones celulares não funcionam, as pessoas dormem cedo (ou quando o sol desaparece) e se preparam para um mais dia longo de trekking de 8, 9, 10 e até 12 horas através de uma natureza virgem e intocável, difícil de ser descrita com palavras (acho que nesse caso, nem as imagens conseguem traduzir a beleza do lugar).
Não há o que se fazer no cotidiano de El Chaltén. Não há compras, não há badalação, apenas contemplação. Sim, contemplação é a melhor palavra que consigo achar para descrever esse pontinho no mapa patagônico, que se gaba por hospedar uma das montanhas de gelo mais belas do mundo, o Fitz Roy, impotente e magnânima, desafio para montanhistas do mundo inteiro.
Estamos no extremo sul da Argentina, na província de Santa Cruz, em El Chaltén, mais conhecida como a capital nacional do trekking.
Senhoras e Senhores, apertem os cintos, pois minha viagem exploratória pela Patagônia está apenas começando.

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Sunday, 18 January 2009

Destinazione Paradiso


Mas porque a Patagônia? – perguntava-me alguém, atônito com o destino para lá de exótico.

És a primeira pessoa que conheço que deseja passar o verão na Patagônia, a tremer de frio...- dizia-me outro, também surpreso com a escolha.

Sou mesmo movida pela intuição e desde que este convite me fora feito, não pensara duas vezes: voltaria a ser mochileira, como nos velhos tempos, a desbravar terras desconhecidas, a decodificar um idioma que não domino, acompanhada por uma gente que mal conheço.

Corajosa? Nem tanto. Por trás de uma aparente bravura, há um desejo sobre-humano de ultrapassar os próprios limites, ir além da zona de conforto e abandonar as velhas certezas.Velhas certezas que acomodam, paralisam e nos fazem crer que o certo é terreno mais fértil do que o duvidoso.

Ouvira dizer que em poucos lugares na Terra, poderia o ser humano aperceber-se de sua própria insignificância, tamanha era a magnitude da natureza naquele lugar.

Sendo assim, estava de malas prontas não rumo a um destino inóspito, exótico, excêntrico. Estava, sim, pronta a trilhar o caminho em busca de si mesma, a re-encontrar-se consigo no silêncio inquebrantável de um lugar aonde apenas a natureza fala – e cala.

Porque se não for assim, terei ao fim de cada dia de minha vida, defronte ao espelho, aquela velha conhecida de sempre, que ao ver-se refletida, mesmo de cabelo ou roupa nova, sente ter desperdiçado por pura covardia mais uma chance de viver plenamente, de ir além de seus medos, para então descobrir-se mais forte, mais inteira, mais humana.

Por que se não for assim, não saciarei essa minha fome de vida, essa urgência que me faz crer que posso – e devo – gastar um pouco mais da generosa cota de vida que o destino me oferta.


Até a volta!

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Destinazione Paradiso é o título de uma música italiana que mais ouço em meu rádio nas últimas semanas. Sua letra diz que "Uma viagem só tem sentido sem retorno, se não em vôo, sem parada,nem confins, apenas horizontes nem que sejam bem distantes". Ecco.

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Tuesday, 16 December 2008

Destino de férias


Existe coisa mais excitante do que planejar cuidadosamente o destino das próximas férias?
Eu não conheço nada melhor que isso.
Sonhando, nos entregamos a planejar cada detalhe, na expectativa do que vamos encontrar na viagem, quem vamos conhecer, o que vamos comer, onde vamos ficar, uma espécie de prévia da experiência de fato, que, de tão real, torna-se quase a viagem em si. Sim, porque para mim, uma viagem de férias só vale se houver tempo de sonhar suficientemente com ela nos dias, meses, quiçá anos que a antecedem.
Sou suspeita para falar porque A-MO viajar com todas as minhas forças e defendo a experiência com unhas e dentes, certa de não apenas traz conhecimento de vida, mas amadurecimento, autonomia, amplia os horizontes, a cultura, as possibilidades de socialização, mas ACIMA DE TUDO, nos permite re-dimensionar nosso micro-cosmo para bem além das fronteiras de nosso próprio umbigo.
Sinceramente, sinto dó das pessoas que não curtem viajar, seja por preguiça, acomodação ou preferência mesmo. Lembro ter ouvido uma amiga certa vez comentar sua semelhança com Ariano Suassuna em sua aversão a viagens. Perdoem-me ambos a total franqueza: pobres criaturas; não sabem o que estão perdendo.
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Em tempo: Meu destino nas próximas férias? Surpresaaaaaaaa

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Monday, 24 November 2008

A Pipa dos meus sonhos

Revisitar Pipa neste último fim de semana foi quase como passar em flashback um filme das tantas vezes em que estive por lá ao longo de meus vinte e poucos anos – o que não faz tanto tempo, vamos combinar (!).
Já estive em Pipa das mais diversas formas. Fiz bate-e-volta, acampei, dormi dentro de carro, me hospedei em pousada bacana, em pousada fuleira, ou seja, cada vez que estive em Pipa, vivi o lugar de forma única e singular. Por isso, garanto: Pipa é Pipa de qualquer jeito.
Há algo de comum a todas as minhas viagens à Pipa, no entanto: na entrada, em Tibau do Sul – município onde a praia de Pipa está localizada - o colorido das roupas das comunidades mais simples estendidas ao vento nas cercas de arame farpado se sobrepõe ao verde dos coqueirais e o azul do céu claro, profundo, ajudando compor uma das mais belas fotografias de meu imaginário pessoal. Quis registrá-la, dessa vez.
Comecei a freqüentar a praia de Pipa em meados da década de 90, convencida por amigos que haviam descoberto uma praia nova, quase virgem, vilarejo de pescadores, que virava reduto de uma galera alternativa, reunida para celebrar a vida, encontrar os amigos, paquerar e de quebra, usufruir de uma natureza ímpar e mais-que-generosa com aquela parte do nordeste do Brasil.
Logo depois, Pipa vivia sua fase mais ‘coquete’: virava ponto de encontro de uma turma de patricinhas/mauricinhos, gente bonita/descolada/abastada, que fazia de Pipa seu destino preferido nos fins de semana, férias e feriados a fim de paquerar e se divertir.

A Pipa de meus anos de farra tinha como trilha sonora o som do Rappa – “Valeu a pena, ê, ê, sou pescador de ilusões.....” – que saía dos potentes sons dos carros enfileirados na rua principal do centrinho, palco de nossas ilusões e desilusões amorosas.

Lembro que se fazia fila do lado de fora da única padaria do lugar para se tomar o café da manhã – a dobradinha pão & queijo e café & leite – no domingo posterior ‘àquela’ balada de sábado.

Depois que fui morar no sul, passei um tempo sem ir à Pipa. Quando voltei, uns 3 anos atrás, tomei um susto. Pipa não já era mais a mesma: havia ganho ares internacionais: tomada por pousadas e resorts de luxo, restaurantes internacionais, imobiliárias, bancos e lojas de grifes, o que elevava o custo da vida em Pipa à estratosfera . “É o preço do desenvolvimento”, diriam alguns, mais otimistas. Para mim, havia se descaracterizado.
De cardápio único, há, hoje, cafés-da-manhã para todos os gostos e em todos os idiomas espalhados ao longo da rua principal do centrinho de Pipa– destaque para aqueles escritos apenas em inglês. Quem não fala, que se vire.
De fato, Pipa hoje é uma torre de Babel – mal se ouve português na rua. Neste fim de semana em que passei por lá, ouvi de tudo: italiano, francês, espanhol, norueguês, alemão, inglês – e pouco, muito pouco português. O lugar virou uma miscelânea lingüística.
Imagino o quanto deve ser estranho para a comunidade de Pipa se adaptar a essas mudanças. São eles, os verdadeiros donos do lugar, que devem sofrer mais que nós, meros visitantes, com os impactos desta transformação tão abrupta.
No novo panorama, a divisão social de Pipa é clara e salta aos olhos: do centrinho pra lá, uma estrutura turística invejável; do centrinho pra cá, resquícios de uma comunidade que vai, aos poucos, desaparecendo: a padaria, a velha farmácia, a igrejinha, os mercadinhos, os fiteiros, os restaurantes de PF: marcas remanescentes que nos ajudam a relembrar aquela Pipa mais genuína, uma vila de pescadores envolta por uma natureza capaz de embasbacar o gringo mais insensível. A verdade é que hoje Pipa não pertence mais a nós, locais ou quase locais – ela é de todos, ou melhor, talvez mais deles, os estrangeiros. São eles que mantêm as boas lojas, os melhores restaurantes, os maiores resorts, o capital. São eles que imprimem sofisticação à Pipa, que personalizam a estética do lugar, que ressaltam o verde das plantas e o azul do mar através das luzes, das cores dos vidros, dos elementos naturais lapidados e adaptados para impressionar os olhos de quem chega em Pipa pela primeira vez. Mas, e precisava?
A natureza de Pipa é – continua – linda e selvagem, dispensa retoques, camuflagens, destaques. Ela fala por si. Exuberante, a beleza natural da praia de Pipa sobrevive às pressões externas e conserva seu charme único, apesar das alterações sofridas ao longo dos últimos anos.
Romântica incorrigível que sou, quero crer que, em essência, Pipa continua sendo a mesma que me leva de volta ao cenário de meus tempos de garota de 20 e tantos anos, embalada pelo som do Rappa e inebriada pelo colorido das roupas que sincronizadas aos coqueirais, dançam, leves, no varal.

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Saturday, 25 October 2008

Don't cry for me Angentina

Minha última noite em Buenos Aires foi brindada – literalmente! – com muito champagne, cerveja e pizza, no melhor estilo, na Recoleta. Foi marcada também por meu saudosismo ao realizar que minha viagem acabava ali, naquelas últimas horinhas. Com Beltran e Carol, virei a noite pela primeira vez por que queria aproveitar intensamente dos últimos minutos daquela viagem que seria um divisor de águas em minha vida, nos mais diversos sentidos.


Algo muito particular em Buenos Aires tocou meu coração e minha alma, no sentido mais profundo da palavra. Me fez perceber a mim mesma de um jeito diferente, compreender a natureza de meu espírito itinerante que não está aqui, ali ou acolá. Entender sua essência, sua urgência e sua necessidade. Com uma ponta de orgulho em mim mesma e de tristeza por estar indo embora, segui, dopada de sono e mentalmente exausta para o aeroporto de Ezeiza às 05 horas da manhã. Estava grogue mas feliz. Imensamente feliz. Sabia que voltaria, algum dia, mas que independente disto, algo em mim havia mudado.

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Wednesday, 22 October 2008

Museu de Bellas Artes http://www.mnba.org.ar/el_museo.php


Sei que passear em Museu é considerado por muitos um programa de índio, mas arrisco dizer que no Museu de Bellas Artes de Buenos Aires o sujeito dificilmente se sentirá entediado.

Simplesmente não há como não se extasiar – nem viajar no tempo – entre as 34 salas de exibição que conservam valiosas obras de gênios da arte como Rembrandt, Renoir, Rodin, van Gough, Picasso e Monet. É como se ao ficar ali, bem de frente a estas obras clássicas, nos déssemos conta da verdadeira dimensão da insignificância de nossa própria existência – claro que no bom sentido. Como se púdessemos, por instantes, perceber que antes de nós e depois de nós o mundo foi e continuará o mesmo, queiramos ou não. Mas que os nossos feitos, nossas obras, pequenas ou grandiosas, estas aqui restarão para contar história e lembrar aos nossos companheiros de viagem quem fomos e o que fizemos.
E aí termino repetindo a frase que ouvi de uma amiga por esses dias: que privilegiadas são essas crianças que podem ter acesso à arte.

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Monday, 20 October 2008

Dia 4 – Imersa em Cultura e Arte

Livraria El ateneo

Chorei. Chorei e não nego. Até eu mesma me surpreendi com as lágrimas que registraram a minha chegada na Livraria El Ateneo. Apesar adepta a este tipo de programa, não pude me segurar o ver todo um teatro transformado em livraria. Eu simplesmente não estava preparada para aquilo. Tudo bem, Carol havia me dito se tratar da maior livraria de Buenos Aires, blá, blá, blá, mas toda aquela engenharia ia muito, muito além de minhas expectativas.
Bom, como semioticista, sei o significado da máxima que diz que uma imagem vale mais que mil palavras. Acho que a imagem do El Ateneo aí em cima diz absolutamente tudo. El Ateneo é o máximo e foi para mim, o ápice de minha ida à Buenos Aires. Perdoem-me os aculturados, mas é impossível não se comover com tanta expressão de cultura.

Em tempo: zero brasileiros por lá (o que comprova a minha hipótese: eles estavam na Avenida Florida, comprando!)
Depois de quase 3 horas entre livros e estantes, subimos ao palco do El Ateneo, sabiamente transformado em café, e degustamos, ainda absortas pela magnificência do lugar, um merecido lanche. De lá, seguimos em busca de uma empanada, iguaria típica argentina, que não havíamos ainda tido a chance de provar. Fomos encontrar numa Cantina Italiana na Recoleta, e que, apesar de deliciosa, nos rendeu uma baita dor de barriga horas depois, enquanto explorávamos com afinco as obras do Museu de Bellas Artes. Ooops, era nosso segredinho, mas revelei.

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Saturday, 18 October 2008

Dia 3 – A noite do Tango

Acho impossível se conhecer um lugar sem se andar por ele. Andar mesmo, a pé, descobrindo suas esquinas, suas casas e construções, avenidas, ruelas, sentindo, a cada passo, o clima do lugar. Acho isso imprescindível para se falar do lugar com a propriedade de quem, de fato, o explorou. Isso inclui também se perder. Com mapa ou sem mapa, a verdade é que depois se acaba achando o caminho certo, com o bônus de ter, ao acaso, descoberto cantinhos que com a rota certa não se teria, certamente.
Foi isso que decidimos fazer em nosso terceiro dia oficial na capital da Argentina. Saímos da Recoleta rumo à estação de metrô – o tal Subte – que nos levaria até a 09 de julho, a avenida mais larga do mundo, localizada no agitado e charmoso centro de Buenos Aires.
Plaza del Granaderos, lá chegamos, e fomos atrás da agência que havia nos vendido, pela Internet, os ingressos para o Señor Tango, o esperado show de tango que faria a alegria da nossa balada naquela quinta-feira. Diversão garantida, haviam nos assegurado.

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Alguns muitos passos adiante, pudemos sentir o frisson de estar ali no burburinho do centrão portenho, tão diferente de nossos parâmetros de centro de cidade, em João Pessoa. Uuuuui. Tudo tão civilizado, porém igualmente apressado, como em qualquer centro de uma capital desse porte.
Às vezes esquecia que estava na América do Sul e me via, novamente, no CBD de Sydney ou caminhando pelas ruas do centro de Londres. Os cafés, a altura e a arquitetura dos prédios, o look das personas; caminhavam com porte elegante, apressados, rumo a algum lugar. Onde estariam indo? O que fariam depois? Moravam com a família, sozinhos? Tentava, incógnita, soar blasé, misturar-me à massa, e por um instante, esquecer-me de quem eu era, de onde vinha, para onde ia.

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Chegamos ao prédio, numa rua não muito movimentada, chamada Suipacha. Parecia meio residencial, meio empresarial. Elevador antiiiiigo, daqueles típicos da década de 60, retrô. Entramos em uma salinha pequena e apertada, sem número nem identificação porta, entulhada de papéis e caixas que pareciam estar ali há tempos, simulando uma agência de viagens prestes a ser transferida para um outro lugar dentro de poucos dias. Chegamos a pensar ser tratar de um golpe fácil, desses que se aplicam pela Internet. Uma garota gordinha e loira, de bochechas rosadas nos atende a porta. “Viemos buscar os ingressos para o show de tango. Compramos pela Internet. É aqui mesmo?”. Ufa, estávamos salvas.

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Flores na Florida
Fomos parar na Florida. Mas onde estão as flores?
A tal avenida, conhecida como o espetáculo das compras, era de fato, borbulhante. Muitas pessoas nas ruas, buskers a cada 100 metros tocando ora tango, ora rock ora qualquer outra coisa. Estátuas humanas também compunham o colorido daquela rua, que nos disseram, precisávamos ter cuidado ao andar. Pobre gente ingênua. Não sabem que de violência urbana, entendemos nós, brasileños.
Pela primeira vez, ouvíamos português pelas ruas de Buenos Aires. Eis do que gostam nossos compatriotas: shoppings centres e compras.
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E por falar em Shopping Center, apesar de não ser o tipo de programa que mais amo, tenho que tirar meu chapéu para as tais Galerias Pacífico. Que escândalo de afrescos.
E ali mesmo, não só me rendi aos flashes de minha câmera digital como à compra de um perfume emocional que havia me encantado pelo conceito que carregava. Universo Garden Angels http://www.universogardenangels.com/index.htm. Era esse o nome da loja que prometia não só perfumar mas promover toda uma mudança na aura da criatura e através do que chamavam aromacolorterapia. Era disso que estava precisando.
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O ponto final daquela programação matinal seria o tradicional Café Tortoni, o mais antigo café da Argentina, ponto de encontro de intelectuais, políticos e artistas desde 1858.
Entrar no Tortoni foi quase como um mergulho no tempo. A começar pelo Sr. Joaquim, o garçom que nos atendeu com uma autoridade e certo ar de petulância de dono da casa, que só fomos verdadeiramente capazes de compreender ao nos deparar com a foto do dele em um guia internacional de Buenos Aires.
Pois bem. Tivemos a honra de ter o renomado Sr Joaquim servindo nosso Té del Entardecer, rica adaptação do tradicional chá da tarde, em sua versão portenha. Croissants – media lunas – tostadas (misto-quente), suco de naranja, géleias e outras delícias servidas em louça que poderiam muito bem ter pertencido à família real nos fizeram voltar no tempo e sentir os ares aristocráticos que impregnavam as paredes do Tortoni.
Podia-se mesmo ouvir, de longe, os acordes do tango de Gardel que embalavam os passos dos bailarinos no palco do pequeníssimo teatro do café, reservado a poucos – e seletos – convidados. No andar de cima, o museu do Tango, que não chegamos a visitar. Fica para a próxima visita.

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Señor Tango

No hall do luxuoso hotel Loi de Suítes http://www.loisuites.com.ar/, aguardávamos, ansiosas, o transporte que nos levaria à tão esperada noite do tango. Sabíamos se tratar de um espetáculo para turistas, algo menos genuíno do que seria, provavelmente, assistir a um espetáculo no Tortoni ou pelos bairros boêmios de Buenos Aires. De tão recomendado, resolvemos conferi-lo.
Uma foto de Hebe Camargo na entrada da casa de espetáculos já nos informava ser lugar querido pelos brasileiros, visitantes constantes do local.
Com ares de teatro, muitas luzes, cortinas vermelhas, tudo muito, muito quente, fomos guiados à nossa mesa, reservada no segundo andar.

Ficaríamos em um camarote no alto, de frente ao palco em que os bailarinos se apresentariam. Lugar privilegiado, não tivéssemos que ficar de pé durante todo o espetáculo (que tem aproximadamente 3 horas) para conseguirmos enxergar os bailarinos sem que a cabeça do colega da frente nos tapasse toda a visão. Never mind.
Uma farta refeição que incluía entrada, vinhos, prato principal (sabiamente, pedi peixe, que acerto!) e sobremesa, nos preparava para o espetáculo a seguir, de tirar realmente o fôlego. Pela paixão, pelo calor, pelas cores do tango, pela força dos bailarinos, pelos passos firmes e precisos foi que voltei completamente inebriada com a Argentina. É como se, a partir do momento em que se pisa os pés em solo portenho, o tango passe a servir de trilha sonora para as explorações de uma cultura rica, um povo forte e uma tradição cuidadosamente cultivada ao longo dos séculos.

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