Thursday, 30 October 2008

Quando custa mudar uma vida?

"Um dia, espiamos para o corredor, passamos da UTI para um quarto, finalmente olhamos a rua e estamos de novo em movimento. Ainda estamos vivos, ainda em processo, até morrer"

(Lya Luft, em Perdas e Ganhos, 2003).

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Quanto custa mudar a realidade nossa de cada dia? Um olhar, um gesto, uma atitude? Em um de seus textos que mais gosto, Lya Luft diz que basta isso, um estalo de dedos, um movimento para fora da toca, um passo no corredor da vida e muda-se tudo, simples assim: aberta a temporada de uma perspectiva novinha em folha de se enxergar a própria vida:

"Podemos optar: Vou ficar dormindo {ou} vou até a próxima esquina ver o que acontece. Essa possibilidade de escolher assusta, mas é apenas um sinal de que estamos embarcados, estamos em movimento e em transformação"

Mas quanto depende de nós e quanto do destino?

Concordo que sem movimento não andamos. Concordo também que somos responsáveis por nossas escolhas. Que é preciso não somente uma intenção, mas uma ação, uma boa dose de iniciativa somada a uma atitude e um passo a frente.
Bom, nem sempre. Às vezes, parecemos andar em círculos, e por mais que tentemos, paramos sempre no mesmo lugar. Uma estagnação em algum setor da vida que parece ter fincado os nossos pés no chão, nos impedindo de seguir em frente. Por que é que isso acontece? O que fazer?

Me impressiona perceber como há gente no mundo que escreve a vida com a velha caneta de sempre, sem ousar, sem criar, sem provocar mudanças na própria história. Parasitam a própria vida, contemplando apenas.

Não saberia viver assim. Me alimento da energia pulsante e criativa de escrever uma nova página de meu roteiro ao abrir os olhos a cada manhã e virar uma outra ao dormir.

Perceber a vida pela janela de um ônibus, é, no mínimo, uma experiência angustiante. Passiva, sinto escorrer pelas mãos minha única chance de chegar lá na frente, olhar para trás e ver o que de bom e de edificante consegui construir para mim e para os outros.

Hoje foi um dia desses, em que me senti verdadeiramente útil. Sinto que mudei não apenas a minha realidade, mas a de seres que estavam à minha volta.

Um olhar, um sorriso, um gesto, uma atitude, que farão, para sempre, a diferença não somente na minha história, mas na daqueles que hoje por ela passaram.

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Tuesday, 28 October 2008

Nasceu!


Diz a máxima que para se ter uma vida plena, deve-se plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho.
Uma árvore, um filho, um livro: frutos de diferentes escolhas. A árvore? Ao plantar sementes, colhe-se frutos ao longo de uma vida, ora doces ora ácidos, produtos de nossas escolhas, sábias ou irracionais.
O filho, também fruto, quando do amor verdadeiro, ultrapassa os limites do incondicional, torna-se a razão de tão único, ímpar, visceral.
Já o livro, eis o fruto de um empreendimento intelectual coletivo motivado pelo desejo de se ver um trabalho eternizado pelas páginas da literatura. Concretizado, porém nunca concluído no ponto final da última página. A verdadeira obra, essa abre espaço, generosa, para as reticências no capítulo derradeiro.
Brindo o nascimento de meu primeiro filho literário, que espero ver transformar-se em frutos na reflexão de cada página virada.
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Perspectivas em Análise Visual: Do fotojornalismo ao Blog
Lançamento: 06 de novembro de 2008.
Local: Restaurante Sagarana - Praia do Cabo Branco
João Pessoa - PB
Horário: 20:00
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Sunday, 26 October 2008

Se [Professor Hermógenes]


Noite insone de sábado, ligo a TV.

Para minha grata surpresa, passava , na TV Cultura, um documentário sobre a vida do Professor Hermógenes, precursor da Hatha Yoga no Brasil, autor de vários livros sobre o assunto. Há tempos tentava sintonizar este programa, mas havia de ser naquela madrugada de sábado, em que meu corpo descansado e minha alma receptiva estariam prontos para serem tocados profunda e plenamente pelas sábias palavras de seu poema ‘Se’, na narração emocionada de Carlos Vereza. No vídeo, o professor aparecia caminhando, sereno, pelas dunas de Genipabu, uma clara alusão ao nosso caminhar pelos percursos da existência na Terra.

Terminada a narração de Vereza, eu chorava feito criança. Não de tristeza, de lástima, talvez. Por tantas vezes seguir ‘parasitando a vida’, sem perceber, que esta, grandiosa, se ofertava, a cada dia, rica e generosamente sem nada me pedir em troca.
Minha total reverência às palavras de Hermógenes:

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Se, ao final desta existência,
Alguma ansiedade me restar
E conseguir me perturbar;
Se eu me debater aflito
No conflito, na discórdia
Se ainda ocultar verdades
Para ocultar-me,
Para ofuscar-me com fantasias por mim criadas
Se restar abatimento e revolta
Pelo que não consegui
Possuir, fazer, dizer e mesmo ser
Se eu retiver um pouco mais
Do pouco que é necessário
E persistir indiferente ao grande pranto do mundo

Se algum ressentimento,
Algum ferimento
Impedir-me do imenso alívio
Que é o irrestritamente perdoar
E, mais ainda,
Se ainda não souber sinceramente orar
Por quem me agrediu e injustiçou
Se continuar a mediocremente
Denunciar o cisco no olho do outro
Sem conseguir vencer a treva e a trave
Em meu próprio
Se seguir protestando
Reclamando, contestando,
Exigindo que o mundo mude
Sem qualquer esforço para mudar eu
Se, indigente da incondicional alegria interior,
Em queixas, ais e lamúrias,
Persistir e buscar consolo, conforto, simpatia
Para a minha ainda imperiosa angústia
Se, ainda incapaz
para a beatitude das almas santas,
precisar dos prazeres medíocres que o mundo vende
Se insistir ainda que o mundo silencie
Para que possa embeber-me de silêncio,
Sem saber realizá-lo em mim
Se minha fortaleza e segurança
São ainda construídas com os materiais
Grosseiros e frágeis
Que o mundo empresta,
E eu neles ainda acredito

Se, imprudente e cegamente,
Continuar desejando
Adquirir,Multiplicar,
E reter
Valores, coisas, pessoas, posições, ideologias,
Na ânsia de ser feliz

Se, ainda presa do grande embuste,
Insistir e persistir iludido
Com a importância que me dou
Se, ao fim de meus dias,
Continuar
Sem escutar, sem entender, sem atender,
Sem realizar o Cristo, que,
Dentro de mim,
Eu Sou,
Terei me perdido na multidão abortada

Dos perdulários dos divinos talentos,
Os talentos que a Vida
A todos confia,
E serei um fraco a mais,
Um traidor da própria vida,
Da Vida que investe em mim,
Que de mim espera
E que se vê frustrada
Diante de meu fim.
Se tudo isto acontecer
Terei parasitado a Vida
E inutilmente ocupado
O tempo
E o espaço
De Deus.
Terei meramente sido vencido
Pelo fim,
Sem ter atingido a Meta.

[Professor Hermógenes]

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Saturday, 25 October 2008

Don't cry for me Angentina

Minha última noite em Buenos Aires foi brindada – literalmente! – com muito champagne, cerveja e pizza, no melhor estilo, na Recoleta. Foi marcada também por meu saudosismo ao realizar que minha viagem acabava ali, naquelas últimas horinhas. Com Beltran e Carol, virei a noite pela primeira vez por que queria aproveitar intensamente dos últimos minutos daquela viagem que seria um divisor de águas em minha vida, nos mais diversos sentidos.


Algo muito particular em Buenos Aires tocou meu coração e minha alma, no sentido mais profundo da palavra. Me fez perceber a mim mesma de um jeito diferente, compreender a natureza de meu espírito itinerante que não está aqui, ali ou acolá. Entender sua essência, sua urgência e sua necessidade. Com uma ponta de orgulho em mim mesma e de tristeza por estar indo embora, segui, dopada de sono e mentalmente exausta para o aeroporto de Ezeiza às 05 horas da manhã. Estava grogue mas feliz. Imensamente feliz. Sabia que voltaria, algum dia, mas que independente disto, algo em mim havia mudado.

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Wednesday, 22 October 2008

Museu de Bellas Artes http://www.mnba.org.ar/el_museo.php


Sei que passear em Museu é considerado por muitos um programa de índio, mas arrisco dizer que no Museu de Bellas Artes de Buenos Aires o sujeito dificilmente se sentirá entediado.

Simplesmente não há como não se extasiar – nem viajar no tempo – entre as 34 salas de exibição que conservam valiosas obras de gênios da arte como Rembrandt, Renoir, Rodin, van Gough, Picasso e Monet. É como se ao ficar ali, bem de frente a estas obras clássicas, nos déssemos conta da verdadeira dimensão da insignificância de nossa própria existência – claro que no bom sentido. Como se púdessemos, por instantes, perceber que antes de nós e depois de nós o mundo foi e continuará o mesmo, queiramos ou não. Mas que os nossos feitos, nossas obras, pequenas ou grandiosas, estas aqui restarão para contar história e lembrar aos nossos companheiros de viagem quem fomos e o que fizemos.
E aí termino repetindo a frase que ouvi de uma amiga por esses dias: que privilegiadas são essas crianças que podem ter acesso à arte.

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Monday, 20 October 2008

Dia 4 – Imersa em Cultura e Arte

Livraria El ateneo

Chorei. Chorei e não nego. Até eu mesma me surpreendi com as lágrimas que registraram a minha chegada na Livraria El Ateneo. Apesar adepta a este tipo de programa, não pude me segurar o ver todo um teatro transformado em livraria. Eu simplesmente não estava preparada para aquilo. Tudo bem, Carol havia me dito se tratar da maior livraria de Buenos Aires, blá, blá, blá, mas toda aquela engenharia ia muito, muito além de minhas expectativas.
Bom, como semioticista, sei o significado da máxima que diz que uma imagem vale mais que mil palavras. Acho que a imagem do El Ateneo aí em cima diz absolutamente tudo. El Ateneo é o máximo e foi para mim, o ápice de minha ida à Buenos Aires. Perdoem-me os aculturados, mas é impossível não se comover com tanta expressão de cultura.

Em tempo: zero brasileiros por lá (o que comprova a minha hipótese: eles estavam na Avenida Florida, comprando!)
Depois de quase 3 horas entre livros e estantes, subimos ao palco do El Ateneo, sabiamente transformado em café, e degustamos, ainda absortas pela magnificência do lugar, um merecido lanche. De lá, seguimos em busca de uma empanada, iguaria típica argentina, que não havíamos ainda tido a chance de provar. Fomos encontrar numa Cantina Italiana na Recoleta, e que, apesar de deliciosa, nos rendeu uma baita dor de barriga horas depois, enquanto explorávamos com afinco as obras do Museu de Bellas Artes. Ooops, era nosso segredinho, mas revelei.

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Saturday, 18 October 2008

Dia 3 – A noite do Tango

Acho impossível se conhecer um lugar sem se andar por ele. Andar mesmo, a pé, descobrindo suas esquinas, suas casas e construções, avenidas, ruelas, sentindo, a cada passo, o clima do lugar. Acho isso imprescindível para se falar do lugar com a propriedade de quem, de fato, o explorou. Isso inclui também se perder. Com mapa ou sem mapa, a verdade é que depois se acaba achando o caminho certo, com o bônus de ter, ao acaso, descoberto cantinhos que com a rota certa não se teria, certamente.
Foi isso que decidimos fazer em nosso terceiro dia oficial na capital da Argentina. Saímos da Recoleta rumo à estação de metrô – o tal Subte – que nos levaria até a 09 de julho, a avenida mais larga do mundo, localizada no agitado e charmoso centro de Buenos Aires.
Plaza del Granaderos, lá chegamos, e fomos atrás da agência que havia nos vendido, pela Internet, os ingressos para o Señor Tango, o esperado show de tango que faria a alegria da nossa balada naquela quinta-feira. Diversão garantida, haviam nos assegurado.

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Alguns muitos passos adiante, pudemos sentir o frisson de estar ali no burburinho do centrão portenho, tão diferente de nossos parâmetros de centro de cidade, em João Pessoa. Uuuuui. Tudo tão civilizado, porém igualmente apressado, como em qualquer centro de uma capital desse porte.
Às vezes esquecia que estava na América do Sul e me via, novamente, no CBD de Sydney ou caminhando pelas ruas do centro de Londres. Os cafés, a altura e a arquitetura dos prédios, o look das personas; caminhavam com porte elegante, apressados, rumo a algum lugar. Onde estariam indo? O que fariam depois? Moravam com a família, sozinhos? Tentava, incógnita, soar blasé, misturar-me à massa, e por um instante, esquecer-me de quem eu era, de onde vinha, para onde ia.

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Chegamos ao prédio, numa rua não muito movimentada, chamada Suipacha. Parecia meio residencial, meio empresarial. Elevador antiiiiigo, daqueles típicos da década de 60, retrô. Entramos em uma salinha pequena e apertada, sem número nem identificação porta, entulhada de papéis e caixas que pareciam estar ali há tempos, simulando uma agência de viagens prestes a ser transferida para um outro lugar dentro de poucos dias. Chegamos a pensar ser tratar de um golpe fácil, desses que se aplicam pela Internet. Uma garota gordinha e loira, de bochechas rosadas nos atende a porta. “Viemos buscar os ingressos para o show de tango. Compramos pela Internet. É aqui mesmo?”. Ufa, estávamos salvas.

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Flores na Florida
Fomos parar na Florida. Mas onde estão as flores?
A tal avenida, conhecida como o espetáculo das compras, era de fato, borbulhante. Muitas pessoas nas ruas, buskers a cada 100 metros tocando ora tango, ora rock ora qualquer outra coisa. Estátuas humanas também compunham o colorido daquela rua, que nos disseram, precisávamos ter cuidado ao andar. Pobre gente ingênua. Não sabem que de violência urbana, entendemos nós, brasileños.
Pela primeira vez, ouvíamos português pelas ruas de Buenos Aires. Eis do que gostam nossos compatriotas: shoppings centres e compras.
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E por falar em Shopping Center, apesar de não ser o tipo de programa que mais amo, tenho que tirar meu chapéu para as tais Galerias Pacífico. Que escândalo de afrescos.
E ali mesmo, não só me rendi aos flashes de minha câmera digital como à compra de um perfume emocional que havia me encantado pelo conceito que carregava. Universo Garden Angels http://www.universogardenangels.com/index.htm. Era esse o nome da loja que prometia não só perfumar mas promover toda uma mudança na aura da criatura e através do que chamavam aromacolorterapia. Era disso que estava precisando.
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O ponto final daquela programação matinal seria o tradicional Café Tortoni, o mais antigo café da Argentina, ponto de encontro de intelectuais, políticos e artistas desde 1858.
Entrar no Tortoni foi quase como um mergulho no tempo. A começar pelo Sr. Joaquim, o garçom que nos atendeu com uma autoridade e certo ar de petulância de dono da casa, que só fomos verdadeiramente capazes de compreender ao nos deparar com a foto do dele em um guia internacional de Buenos Aires.
Pois bem. Tivemos a honra de ter o renomado Sr Joaquim servindo nosso Té del Entardecer, rica adaptação do tradicional chá da tarde, em sua versão portenha. Croissants – media lunas – tostadas (misto-quente), suco de naranja, géleias e outras delícias servidas em louça que poderiam muito bem ter pertencido à família real nos fizeram voltar no tempo e sentir os ares aristocráticos que impregnavam as paredes do Tortoni.
Podia-se mesmo ouvir, de longe, os acordes do tango de Gardel que embalavam os passos dos bailarinos no palco do pequeníssimo teatro do café, reservado a poucos – e seletos – convidados. No andar de cima, o museu do Tango, que não chegamos a visitar. Fica para a próxima visita.

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Señor Tango

No hall do luxuoso hotel Loi de Suítes http://www.loisuites.com.ar/, aguardávamos, ansiosas, o transporte que nos levaria à tão esperada noite do tango. Sabíamos se tratar de um espetáculo para turistas, algo menos genuíno do que seria, provavelmente, assistir a um espetáculo no Tortoni ou pelos bairros boêmios de Buenos Aires. De tão recomendado, resolvemos conferi-lo.
Uma foto de Hebe Camargo na entrada da casa de espetáculos já nos informava ser lugar querido pelos brasileiros, visitantes constantes do local.
Com ares de teatro, muitas luzes, cortinas vermelhas, tudo muito, muito quente, fomos guiados à nossa mesa, reservada no segundo andar.

Ficaríamos em um camarote no alto, de frente ao palco em que os bailarinos se apresentariam. Lugar privilegiado, não tivéssemos que ficar de pé durante todo o espetáculo (que tem aproximadamente 3 horas) para conseguirmos enxergar os bailarinos sem que a cabeça do colega da frente nos tapasse toda a visão. Never mind.
Uma farta refeição que incluía entrada, vinhos, prato principal (sabiamente, pedi peixe, que acerto!) e sobremesa, nos preparava para o espetáculo a seguir, de tirar realmente o fôlego. Pela paixão, pelo calor, pelas cores do tango, pela força dos bailarinos, pelos passos firmes e precisos foi que voltei completamente inebriada com a Argentina. É como se, a partir do momento em que se pisa os pés em solo portenho, o tango passe a servir de trilha sonora para as explorações de uma cultura rica, um povo forte e uma tradição cuidadosamente cultivada ao longo dos séculos.

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Wednesday, 15 October 2008

Sobre Giz e Quadro Negro - Virei Professor


Como cheguei aqui não sei.
Um vento soprou bem forte, e eu, içada pela força do destino, me vi, de repente, sem escolhas, frente à vocação. De giz em punho, ali estava, aos 17, vestida com a responsabilidade de exercitar generosamente o compartilhar do conhecimento que poucos, ia adquirindo.
Por não saber é que ensino” ouvi, certa vez, da octogenária e ilustre professora Rosa Konder, PhD em Lingüística, ao anunciar, com um misto de sabedoria e humildade, a inesgotável fonte do saber.
Sinto por aqueles que pensam que por ensinar, já beberam toda a gota do aprendizado da vida. Tolos, estes.
De nada adianta o conhecimento se este não pode ser posto em prática, útil a alguém. De nada adiantam os títulos, os diplomas e certificados se estes não servem para compartilhar, construir e multiplicar o conhecimento do bem, aquele que provoca e faz pensar, que propõe mudanças concretas, que transforma a vida do individuo, abrindo a mente para perspectivas antes não vistas.
É a esse partilhar que brindo hoje, Dia do Professor, orgulhosamente meu dia e de todos aqueles que dentro e fora das instituições constroem, com dedicação e paciência, um mundo mais justo e igualitário. Um Viva em especial àqueles que, mesmo em situações adversas, não desistem e persistem na busca por um fazer docente mais digno.
E se havia um outro caminho, fico feliz por ter chegado justo a este, que me permite, a cada dia, exercitar o que há de melhor em mim.

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Wednesday, 8 October 2008

Dia 2 – Explorando Buenos Aires


Sono recuperado, acordei já sabendo que não estava em casa. Queria ver tudo e comecei por uma barraca de frutas. Adoro ver o colorido das frutas quando estou fora.

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Buenos Aires é linda também de dia. Decidimos explorar primeiro a Recoleta, um dos bairros mais elegantes da cidade, onde ficamos hospedadas – Rua La Prida, 1821, para onde voltávamos depois de nossas incursões turístico-culturais.


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Confesso que poucas vezes a estética me impressionou tanto – a humana, digo –homens belíssimos, pareciam saltar de um catálogo de moda. Estilo barba a fazer, a essência da mais genuína sensualidade latina personificada. Entendi ali o significado da expressão latin lover.

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Ainda inebriada pela beleza dos portenhos, cheguei na Avenida Alvear, little Paris, para os íntimos. Uma réplica de Paris na América do Sul. Mansões, hotéis caríssimos, embaixadas. Aquele clima europeu que por segundos, nos faz acreditar que não estamos no país vizinho.

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O City Tour da tarde nos deu idéia panorâmica de Buenos Aires. Começamos pela Casa rosada, residência da chefe de Estado Cristina Kirschner. Pausa para fotos na Plaza de Mayo.



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Próxima Parada: Cemitério da Recoleta: Aqui jazem figuras célebres e aristocráticas, como Dona Evita Perón. Há tours guiados pelo cemitério, que é, de fato, suntuoso. Só mesmo os argentinos para fazerem de um cemitério ponto turístico.

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Terceiro e último pit-stop: El Caminito, no bairro boêmio de La Boca. O tal do caminito parece mesmo meio fake com seu colorido extravagante e o som de tango que embala os bailarinos em frente aos cafés espalhados pelas poucas ruelas cercadas por policiais que protegem os turistas do perigoso bairro dos arredores. Mas Caminito seduz e tem seu charme próprio, traduzido nas cores de suas paredes com arte em grafite, nas canções de Gardel entoadas nos bares, na arte das ruas, na alegria estampada na cara de sua gente. Coisa para turista ver? É, pode ser. Mas que encanta, ah, isso encanta.

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Fechamos a noite do primeiro dia no bairro de Palermo (Soho ou Hollywood, vai saber), onde juram que rola a melhor balada de Buenos Aires. Animadíssimas, pedimos um táxi, e lá fomos, emperiquitadas sonhando com todos os guapos que vimos de dia pelas ruas.
Um balde de água fria ao perceber que hoje era quarta, e que os guapos amanhã trabalham; hellowww, nós é que estamos férias. Uma pizza, uma taça de vinho e algum desapontamento, voltamos para casa. Minha cara na foto diz tudo.

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Tuesday, 7 October 2008

O primeiro jantar a gente nunca esquece


Decodificar aquele cardápio foi, no mínimo, uma experiência lingüística divertida. Tudo soava familiar, ao mesmo tempo que ininteligível. Eu parecia entender, mas na verdade, não entendia. Pollo con patatas. Batatas com alguma coisa, ok, captei. Helados como Postres. E aí? Não dava. Eu precisava ter estudado ao menos algumas palavrinhas. Precisava também comer. Estávamos exaustas, a caminhada havia sido longa atrás da tal Barbacoa. E havíamos parado lá, ou melhor, no Lo de Mateo. Lugar simpático, lembrava os restôs alternativos da Lagoa da Conceição em Floripa.
Tudo certo, pedido feito, primeira etapa vencida. Seria aquilo mesmo, o tal pollo com arvejas. Até mímica rolou até compreender que se tratava de frango com ervilhas. Pra beber, vinho, o argentino Trapiche, ao qual nos mantemos fiéis até o fim da viagem.
Bela refeição, deliciosamente saboreada com gosto de descoberta.
Para brindar, espumante, uma cortesia da casa. Ou melhor, do garçom. Mas isso é uma longa história, fica para depois.

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Monday, 6 October 2008

Dia 1 – A chegada


Exausta. Ainda muito cansada pelo trabalho das semanas anteriores, pisei em solo portenho. O aeroporto, pequeno, me causou surpresa, afinal de contas, Buenos Aires, acreditava, era Buenos Aires, capital de renome, não João Pessoa. Mas tudo bem, vá lá, o aeroporto era colorido, (pequeno), e acolhedor. Gostei e fotografei.

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O shift lingüístico foi outra coisa curiosa; de repente, me dei conta de que não estava mais no Brasil, mesmo estando logo ali. Uma bobagem, divagações lingüísticas que para quem trabalha com linguagem fazem toda a diferença.
Hora e tanto depois do vôo da Carol chegar, tcharaaaan – cabeça na rua, dentro do táxi, pelas ruas de Buenos Aires. Um clima de decadence avec elegance terceiro-mundista, algo como a Colômbia com mais estilo, não sei explicar. Já na estrada, a pobreza pelas marginais. Pobreza mesmo, parecia subúrbio brasileiro, com casas precárias, prédios do tipo favelão. Minutos depois, à medida que nos aproximávamos da cidade, aí sim, uma Buenos Aires mais moderna e cosmopolita, com ares de capital européia. Me lembrou muito Paris.


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As sacadas dos prédios tinham flores, todas elas, um mimo. Árvores secas começando a florescer, prenúncio da primavera. Mais uma vez, os códigos lingüísticos me intrigavam: peluquerias e confiterias enfileiradas, lembravam-me que não, apesar das coincidências sonoras entre português e o espanhol, Brasil e Argentina eram muito, muchisimo diferentes. Descobertas que eu faria nos dias seguintes.

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Sunday, 5 October 2008

Primavera Portenha


Tudo igual, a rotina mortificante interrompia meu fluxo criativo sem piedade. Sentia que era hora mesmo de tirar umas férias. Férias de e para mim mesma, precisava reencontrar o brilho perdido dos meus olhos, a espontaneidade, a leveza. O destino? Buenos Aires. A razão? Conveniência, puramente. Rumaria de todo jeito ao sul do Brasil, para um congresso de lingüística em Floripa. Uma paradinha em Buenos Aires dias antes me faria bem, afinal, não conheci a cidade durante os meus quatro anos de sul do Brasil.
Reconheço que eu, mesmo sendo viajante experiente e mochileira de carteirinha havia subestimado o lugar, desconfiada da legião de brasileiros que a TV frequentemente reportava, do tipo de argentinos que invadiam Floripa todo ano no verão. Não, Buenos Aires não estava nos meus planos. Errei feio, confesso.
O lugar é encantador. "Mi querido Buenos Aires a mi me encantou muchisimo", proclamo em meu sofrível, porém bem-intencionado portunhol.
Buenos Aires respira sensualidade na beleza de sua gente pelas ruas – destaque para os homens, que belíssimos, nos devoram com os olhos e nos fazem sentir de novo desejadas com uma volúpia que os homens brasileiros parecem há tempos ter esquecido. O clima europeu tem um familiar calor latino que nos aquece a alma embalado pelos acordes do tango de Astor Piazzola e Carlos Gardel. Há algo de muito, muito familiar em Buenos Aires. Mas isso só contarei nos posts seguintes, para não perder a magia nem estragar a surpresa.

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