Friday, 27 February 2009

Manga que te fa bene

Como boa comilona, nunca perco a oportunidade de cair de cabeça na culinária local a cada viagem. Revelo que a boa mesa é dos meus maiores prazeres na vida(afinal de contas, é por isso que uso mais minha bicicleta que meu carro em minha cidade...).

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GUISO DE LENTILHAS

Dessa vez, minha primeira incursão gastronômica pela Patagônia foi em um restô de nome estranho – Ahonikenk – no vilarejo de Chaltén, o qual, segundo Lau, serve o melhor guiso de lentillas da região. Pelo-amor-de-Deus, que delicia era aquela????

Como subestimei por toda minha vida o sabor desses benditos grãozinhos? E eu que só conhecia arroz com lentilhas...

O tal guiso – tipo um ensopado – encorpora as lentilhas em um caldo espesso de legumes e bacon, que esfumaçante, derrete na boca a cada colherada. Imperdível.

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EMPANADAS

As benditas empanadas – iguaria que é a cara da Argentina – viraram a salvação de nossos circuitos de trekking por Chaltén. Elas mantinham nossa cota de carboidrato em cima para enfrentarmos longas caminhadas de 7, 8 horas.

Encomendávamos inúmeras, nos mais diversos sabores pollo (frango), carne, choclo (milho), aspargos – e lá seguiamos, fortes e felizes, devidamente nutridos, para mais um dia de caminhada intensa. Viva as empanadas.

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TORTA NEGRA
Esses pãezinhos com cara de rosca e polvilhados de um autêntico chocolate granulado serviam de sobremesa nos piqueniques que fazíamos à beira dos lagos em Chaltén. Também chamados de cara suja na Argentina, eram a cara da infância da Lau, que conta que seu avô quando vivo, sempre trazia como carinho toda vez que ela se comportava direitinho. Que fofo.

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LOCRO

Talvez a comida mais típica da região Patagônica.

Locro é uma espécie de ensopado que tem como base a fava e o milho, cozidos em um caldo espesso de carne (sim, continuo vegetariana, mas não sejamos inflexiveis, não é mesmo?), com alguns legumes, bacon, que se dissolvem até formar uma sopa grossa e espessa. É forte, mas tem um gosto leve, encorpado. Dizem que dá sustância (é, pude ver...) e espanta o frio.

Degustei em grande estilo, na Cerceveria em Chaltén, acompanhada por um bom vinho Malbec e com Peras al Borgoña como postre (sobremesa). Para completar, a companhia de um suíço gatérrimo, precisa de mais?

Peras al Borgoña?

Cozidas no vinho tinto, com canela e limão, servidas quentes, acompanhadas por crema fresca. Aiii,, bom demaisss.

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TRUCHA PATAGÔNICA



Sempre ouvi dizer que truta era um peixe caro e refinado. O primo rico do salmão, talvez?

Como quem está na chuva, é para se molhar, cai de cabeça numa tal truta ao roquefort, servida no melhor restô de Calafate. Menino, como aquilo tava bom. Pouca comida, como deve ser nos melhores restaurantes, acompanhada de papas (batatas) sauté e de um bom vinho branco. O queijo roquefort, derretido sobre o peixe, ressaltava o sabor e formava uma combinação perfeita, uma alquimia de sabores que derretia na boca. Ahhhhhhhhhhhh.

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HELADOS VÁRIOS

Podemos até ser os ‘mais grandes do mundo’ (segundo nossos hermanos, é assim que nos definimos), mas que os sorvetes (helados) são gol de placa deles, isso não tem como negar.

Na Patagônia, confirmei isso. Provei dulce de leche granizado (com chocolate chips, um absurdo de bom), de calafate (aquela frutinha tipica da região, da cor do açaí), de strudel (isso mesmo, strudel! Hummm), de dulce de leche bonbon (me recuso a comentar). Ai, pára. Isso tá me tirando do sério.

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DULCHE DE LECHE E CHOCOLATE

Trouxe tudo na bagagem para comer aqui, mas confesso que faço a linha é melhor comer lá, imersa no contexto. De toda forma, devorei na companhia de 3 amigas e em uma tarde um pote inteiro do doce de leite mais incrível que já comi na vida, recomendado por Lau como uma guloseima típica e imperdível.

Assino embaixo.

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Tuesday, 24 February 2009

Comer, Rezar e Amar


Nunca fui bem-sucedida ao carregar livros em viagens porque acabava os esquecendo em escanteio, ocupada que estava com tantas outras novas e mais interessantes informações que ia encontrando pelo percurso.
Desta vez, foi diferente. Fiz questão de levar o livro, que mesmo grosso e pesado, não se tornou mais um trambolho a ser estufado na já pesada mochila que carregava nas costas durante os 15 dias de viagem pela Patagônia.
Muito ao contrário. Elizabeth Gilbert em seu Comer, Rezar e Amar, foi minha melhor companhia e sem dúvidas, entrou no ranking dos livros mais bacanas que já li.
Liz é expert em nos conduzir através de seu estado de espírito em cada um dos destinos que escolheu para aportar em sua trajetória de auto-descoberta ao longo de um ano de viagem pela Itália, Índia e Indonésia, destinos todos iniciando com a letra I, I em inglês (eu), fato curioso que ela descreve em seu capitulo de introdução.
A narrativa de Liz é leve, engraçada, descontraída, mesmo quando aborda temas mais densos como depressão, separação e religião.
Liz foi comigo à Patagônia e sua narrativa me trouxe a inspiração e a vontade de quem sabe, um dia, também escrever meu livro de crônicas de viagens. Devorava cada página com voracidade e interesse e só me despedi do livro, já de volta, em João Pessoa, quando fechei a última página, um misto de prazer e saudade.
Fui pesquisar sobre a autora na Internet e descobri que Comer, Rezar e Amar deve em breve virar filme, estrelado por Julia Roberts, fã declarada do livro e de Liz. É esperar para ver.

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Sunday, 22 February 2009

Devaneios de carnaval

Juro que queria ser mais animada. Morro de inveja daquelas pessoas que saem, em tempos de festa, a correr atrás do trio elétrico, cantando, dançando, fazendo coreografia, mortas de animação e só param mesmo no dia seguinte. Acho lindo, mas acredito que nasci com uma de minhas baterias descarregadas. Que péssima brasileira foliã soy yo.
Mas isso não é de hoje. Demorei para reconhecer, mas sei desde pequena, sempre fui mais para observadora e analítica do que propriamente participante em eventos como carnaval, folia de rua ou coisa parecida.
Continuo dizendo que não perco a chance de ver, de cima, de camarote e acenar para quem está lá embaixo, se jogando lindamente. Mas não, não sou desse time. Não curto multidão, nem música alta, nem cheiro de cigarro e cerveja derramada em minha roupa limpa. Sou fresca, assumo, em mea culpa. Prefiro os pequenos encontros, intimistas, em que se pode ouvir a voz do outro, baixinho, provocando reações, impressões, outro tipo de emoção. Minha folia é essa.
Festas de rua como carnaval são verdadeiramente lindas, mas não consigo desligar o meu dispositivo de investigadora a tentar descobrir a razão que move tanta energia humana simultaneamente a fazer exatamente a mesma coisa e sentir igual, como se num passar de mágica, fossem movidos por uma descarga elétrica que pronto, agora, a partir desse instante, seremos todos felizes desde já, a tal alegria em massa e se você não está na onda, cai fora, diz a música e é automaticamente excluído do grupo.
Não sei, acredito mais na individualidade do ser, no quando e como vou decidir me sentir feliz, só eu e por mim mesma.
Bom, já falei sobre isso no ano novo e claro, não vou viajar na maionese nem estragar o seu carnaval. Eu vou pra praia meditar.
E para você, caro leitor, boa folia!

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Friday, 20 February 2009

TODO Glaciares

Viajar por entre os glaciares dentro de um barco com uma estrutura invejável me remeteu a um daqueles brinquedos da Disneyworld. Ou a um passeio vip, numa embarcação luxuosa para um seleto grupo de milionários. E eu, lá, entre eles.
Não, eu não estou delirando. Como que num sonho, me vi dentro de um barco que deslizando sobre as águas gélidas do Lago Argentino, provocava um ohhhhhhhh de espanto entre seus tripulantes, embasbacados a cada glaciar que encontrávamos pelo caminho.
Como analista de imagens, acho que preferiria mil vezes recorrer a uma das minhas fotos, ciente de que por mais que tente, jamais conseguirei descrever a beleza que foi, entre um cochilo e outro, despertar entre castelos de gelo na excursão pelo TODO Glaciares. Será que esta imagem fala mais mil palavras? Tenho minhas dúvidas.

Fazia frio e chovia fininho, o céu estava cinzento, mas toda essa intempérie natural parecia realçar ainda mais a beleza daquele universo azul piscina. Cada glaciar parecia moldado pelas mãos de Deus. Assim como nenhum um de nós é igual ao outro, tamanha era a singularidade daquelas estátuas de gelo.
E a cada parada para contemplação, eu dizia baixinho para mim mesma: Deus, obrigada por me permitir estar aqui hoje, neste instante, diante disto, diante de você! E também baixinho, ouvia ele me sussurrar em resposta: Você, Dani, como boa menina que foi, fez por merecer!

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Sunday, 15 February 2009

Perito Moreno

Ao chegar no Glaciar Perito Moreno, o impacto não somente é visual, mas também sonoro. A cada retração das geleiras, um estrondo que se assemelha ao barulho do trovão mais assustador que se pode pensar. Chega a amedrontar. Mas diante de tanta beleza e magnitude, é inevitável não sentir paralisado, pequeno, minúsculo. Difícil crer que se pode capturar com os olhos e com o coração tudo aquilo que está se vendo.
Semi-derretidas, as geleiras parecem gritar ao serem derrubadas em efeito dominó nas águas do Lago Argentino. É um mar de gelo a se perder de vista, algo que hipnotiza e fascina, sendo ao mesmo tempo encantador e desolador.


Suas cores oscilam de um branco claro e límpido a um azul profundo estonteante, uma brincadeira da natureza que parece insistir para que nos coloquemos em nosso devido ínfimo lugar.
A experiência de estar diante do glaciar Perito Moreno não me deixou dúvidas quanto a existência e o amor divino. E quando, ao fim do dia, o sol pareceu querer despontar por trás do azul celestial das geleiras, senti-me dialogando silenciosamente com Deus, que não tardou em sussurrar em meu ouvido a resposta às minhas indagações, de um jeito que somente ali, naquele fim do mundo e inicio de tudo, eu seria capaz de entender.

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Thursday, 12 February 2009

A plenitude do vazio

Às vezes, quando me sentava para ler ou jogar conversa fora na sala comum a todos, em Chaltén, mesmo de costas para a janela, me virava para ver o Fitz e cair na real de onde eu estava. Era surreal estar ali, tão longe de tudo, tão perto de Deus.
E pela primeira vez na vida eu esqueci quem eu era. Talvez algum ser flutuante no mundo, solto, leve, simples assim.
Reconhecia que tinha passado e futuro e que uma impressão digital que me identificava em meio a tantos outros. Isso me garantia o senso de pertença e me dava uma certa segurança, mas só.
Durante os 15 dias em que viajei pela Patagônia, experimentei a deliciosa sensação de me afastar de meu ego e mergulhar num estado de consciência que me removia no tempo e no espaço, como que em estado de graça, dormente, para a qualquer momento acordar em casa, em João Pessoa, certa de que tudo não passou de um sonho. Um lindo sonho.
Talvez a desejada vacuidade, diriam os meus amigos budistas.
Seja lá o que for, o encanto só foi quebrado quando já em Calafate, resolvi checar o email para avisar à família da data de retorno. Aquilo teve um efeito devastador em mim. Foi como se alguém abruptamente tivesse me acordado no instante mais sublime daquele sonho bom, no exato momento em que se passa do estado alerta para o estado de graça, etéreo e lúdico. Jurei não mais fazer isso e de fato não o fiz, até o fim da viagem.

Afinal, eram férias, não?

Uma colcha de nuvens vista da janela do avião, tirada na volta para casa, momento em que, aos poucos, eu começava a recobrar a consciência e voltar à realidade. Uma pena.

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Tuesday, 10 February 2009

** Entre El Calafate e os Glaciares **


El Calafate é provavelmente a cidade mais cara da Argentina, segundo Laura. Vive essencialmente do turismo, principalmente daquele que gira em torno das excursões aos Glaciares.
Depois de uma semana em Chaltén, Calfate parece mais uma cidade grande com seus 5 mil habitantes. Foi lá que pude ter acesso aos meus emails pela primeira vez em uma semana (48!) e onde pude ter a sensação de estar de volta à civilização (arrrghhhh)
Calafate é uma cidadezinha charmosa sem ser chique, com muitos, muitos, mochileiros. Gente jovem falando os mais diversos idiomas, carregando aquelas mochilas enoormes nas costas para lá e para cá. Não se vê outras coisas nas ruas.


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Lembro da minha impressão no primeiro dia de viagem ao chegar ao centro de Calafate para pegar o ônibus até Chaltén - nunca tinha visto tanto mochileiro por metro quadrado na vida! Nada parecido, nem na Europa. Aquilo era de fato, uma backpacker’s village! E eu nem havia chegado em Chaltén ainda...Me senti a cópia mais fajuta de uma mochileira de verdade.
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Sunday, 8 February 2009

El Chaltén

Acho meio difícil alguém se apaixonar por El Chaltén à primeira vista. Há algo de decadente na estética do lugar, um aspecto de cidade em construção e destruição simultaneamente. Difícil de explicar. À primeira vista, esta minúscula cidade de 10 ruas cidade, 500 habitantes e pouco mais de 10 anos (é a mais recente de toda Argentina) - parece excessivamente árida, opaca e sem cor. Tem algo de cidade fantasma, daquelas de faroeste de filme norte-americano.

Em Chaltén, não há TV, celular não pega, telefone muito menos, o que é computador?
Gradativamente, vai-se acostumando com a dinâmica do lugar, onde o silêncio é tanto e tamanho, que ao fim de uma semana, já de volta à civilização, o menor barulho parece ecoar e ter tanto impacto que incomoda lá no fundo da alma.

Pouco a pouco, Chaltén vai virando sinônimo de aconchego para os mochileiros que, depois de um longo dia de caminhada entre montanhas de gelo, bosques e lagos, ao avistarem de longe a vila, sentem-se acolhidos pela sensação de enfim, depois de uma bem-sucedida jornada de exploração e superação, estarem de volta ao seio materno, onde habita a mais perfeita paz e onde o silêncio reina absoluto.

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Thursday, 5 February 2009

Pelos circuitos de Trekking - El Chaltén

Reza a lenda que quem prova a frutinha calafate – típica dos arbustos patagônicos – sempre voltará ao lugar. Torço mesmo para que isso seja verdade, pois a cada parada entre as longas horas de caminhada pelas montanhas de Chaltén, adocicava minha boca com essas bolinhas de cor azul-lilás, cheias de caroçinhos quase invisíveis. Faz-se de um tudo o tal do calafate: doces, geléias, licores, sorvetes. Provei todos e achei bem parecido com o açaí, embora mais cítrico e mais azedinho. Mas a flora patagônica vai muito além do calafate: flores selvagens se espalham pelas trilhas servindo de tapete para os incontáveis mochileiros que anualmente visitam Chaltén no verão ('Dani, solta, isso'! - gritava Laura. São apenas flores selvagens!!!. Apenas? São lindas! - replicava eu).Os mochileiros de Chaltén são gente de toda parte do mundo que ao topar uns com os outros em meio aos circuitos de trekking, se saúda com um caloroso hola! (às vezes sai um que tal?, mas não espere resposta!) e pronto, se estabelece ali um vínculo de camadaragem entre companheiros de caminhada que nunca haviam se visto antes mas que tem como propósito aventurar-se por montanhas, bosques e florestas para, enfim, experimentarem o êxtase de confrontar-se com imagens de uma natureza que tão exuberante chega a paralisar. Muitas vezes me perguntei o que levava tanta gente a enfrentar horas e horas de caminhada, de desconforto, de sede, de fome, de calor, de frio intenso.
Caminhadas de diferentes graus de dificuldade subindo e descendo montanhas, escorregando, machucando-se, derrapando, encharcando os pés de lama, cansando, parando, subindo e descendo novamente, sem se conseguir enxergar o final.
Com o mapa nas mãos, buscava-se o destino, que poderia ser vários: Laguna Capri? 7 quilômetros. Laguna de Los Tres? 12. Poincenot? Pode ir em frente, faltam só 4 horas. Laguna Torre? Logo ali, mais 30 minutos, que logo, logo, se transformavam em 1, 2, 3 horas (a velha noção dos 10 minutos patagônicos!)
Foi então que percebi que o que menos importava era o tal destino final. Por mais exuberante que fosse ele, o que valia mesmo era o processo, a caminhada, a busca, a superação de si mesmo.
O grande prêmio eram aquelas longas horas de caminhada silenciosa e solitária na companhia de si mesmo através da mata virgem, em contato com os próprios pensamentos, confrontando-se consigo mesmo por mais assustador que isso pudesse parecer. Qualquer som ali proferido soava no mínimo destoante e inadequado ao barulho da mata, o cantar dos pássaros, o correr das águas, o soprar do mais puro ar do planeta.
Naquela fração de segundo pude compreender verdadeiramente a razão de tanto esforço.
Vi gente subindo e descendo montanhas com um bebê amarrado na mochila nas costas – que loucura!
Vi gente tendo ataque de asma em meio a um bosque imenso.
Vi gente acampar em barracas no meio de um bosque gélido, sem banho nem o menor conforto.
Conheci gente de todo mundo que largou o emprego para estar ali, naquele momento, vivenciando a vida da forma mais plena e absoluta, explorando o mundo.
Confesso que senti inveja de tanto desapego.
Foi aí que me dei conta do quanto era uma pessoa de sorte.
Não conseguia pensar em nada, absolutamente nada que me pudesse me fazer mais feliz senão estar ali, naquele instante, com a mochila nas costas, cansada, bebendo a água gélida que, derretida dos glaciares, corria de encontro ao rio que ao atravessar o meu caminho, matava minha sede.
Minha sede de vida.

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Wednesday, 4 February 2009

Verão na Patagônia

Minha viagem à Patagônia começou por El Chaltén, destino ímpar e exclusivo, reduto desconhecido até pelos próprios argentinos, segundo minha parceirona de viagem Laura, a argentina mais gente fina que já conheci na vida. Tenho que admitir que tê-la como acompanhante durante os 15 dias de mochilão através da Patagônia argentina e chilena foi mais que um privilégio: o que mais eu poderia querer senão a presença luxuosa de alguém nativo que já havia visitado o lugar e pudesse me mostrar sem restrições o que de mais valoroso aquela natureza podia oferecer?
Seguimos de ônibus de El Calafate à El Chaltén, cerca de 4 horas de viagem pela lendária Ruta 40, a mesma que Che Guevara percorreu de motocicleta na década de 50 e que foi tão bem retratada naquele filme de Walter Salles que todos nós vimos, Diários de Motocicleta.

O cenário, apesar de árido e desértico, de nada lembra o panorama de seca das estradas do interior do nordeste. Mostras da fauna local como lhamas enormes surgem repentinamente e cruzam a estrada sem cerimônia, demarcando o território e nos lembrando que quem manda ali são elas. Isso faz com que o motorista do ônibus vá reduzindo a velocidade lentamente, para minha total apreciação e lembrança de que sim, estou muito, muito longe de casa.
Dentro do ônibus, na estrada vazia no meio deserto patagônico, me sinto como uma poeirinha integrante daquele cenário e vejo gradualmente o meu ego sendo reduzido ao seu verdadeiro tamanho, minúsculo, mas não menos importante aos olhos de Deus e do universo.
No horizonte, o vilarejo de El Chaltén desponta, espremida entre montanhas de gelo e um deserto árido e silencioso, com suas casinhas iluminadas para receber a noite, que só dá seu ar de graça por volta das 23 horas. Uma mudança e tanta para quem está acostumada a ver o sol nascer primeiro e se despedir por volta das 6 da tarde.
Naquele fim de mundo, os dias são longos e as horas parecem passar lentamente, como deveria sempre ser.
No silêncio de El Chaltén, qualquer som parece uma blasfêmia. Não há acesso à Internet, telefones celulares não funcionam, as pessoas dormem cedo (ou quando o sol desaparece) e se preparam para um mais dia longo de trekking de 8, 9, 10 e até 12 horas através de uma natureza virgem e intocável, difícil de ser descrita com palavras (acho que nesse caso, nem as imagens conseguem traduzir a beleza do lugar).
Não há o que se fazer no cotidiano de El Chaltén. Não há compras, não há badalação, apenas contemplação. Sim, contemplação é a melhor palavra que consigo achar para descrever esse pontinho no mapa patagônico, que se gaba por hospedar uma das montanhas de gelo mais belas do mundo, o Fitz Roy, impotente e magnânima, desafio para montanhistas do mundo inteiro.
Estamos no extremo sul da Argentina, na província de Santa Cruz, em El Chaltén, mais conhecida como a capital nacional do trekking.
Senhoras e Senhores, apertem os cintos, pois minha viagem exploratória pela Patagônia está apenas começando.

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