Friday, 17 April 2009

O Aniversário do Tarzan


Num dado Dia do Índio, 64 anos atrás, nascia meu pai Gilberto.
A vida foi sábia com esta data, meu pai amava a natureza, o cheiro de terra, de mato, os bichos, traços que herdei e que só vim me dar conta agora, quase ontem.

Convivemos pouco, mas o suficiente para me fazer lembrar o quanto meu pai amava a vida. Era intenso como eu e acho que gente assim sente mesmo que vai embora logo, por isso trata de aproveitar e não deixar para amanhã, com medo de que esse amanhã não chegue nunca. Assim fez meu pai, e sorveu cada instante de sua breve existência.

Engraçado como a vida vai apagando os detalhes, aos poucos a memória vai esfumaçando e de saudade virando lembrança, e daí a apagar-se de vez é um salto.
Ainda bem que existe a música, os cheiros, os sons, os gostos, dispositivos voluntários que acionamos cada vez que queremos apurar a memória de alguém que se foi.

Às vezes basta nada, basta um susto e lá vem ela, toda faceira, a dona lembrança.
Sem pedir licença, sem pedir ‘por favor, posso fazer uma visitinha’?
Simplesmente aparece.

E hoje foi assim, lembrei de meu pai.

Se fecho os olhos, posso ouvi-lo aqui pertinho, numa era pré-forró, gritando ‘Nana, filha, venha tomar esse copo de mastruz com leite antes de ir para escola, para ficar forte e imune a gripes e resfriados’. Arghhhhhhh, o sabor ainda trava minha garganta.

Mais um pouquinho e me vem o cheiro de um perfume que só meu pai usava, um tal de... qual era mesmo o nome do perfume? Enquanto as palavras me faltam, me sobram sensações ao rememorar, vividamente, a sua imagem e a minha, de sabonete em punho e alegria no rosto, esfregando freneticamente o corpo ao cantarolar uma canção, a nossa canção, aquela em que meu pai-herói se fazia de Tarzan e promovia uma verdadeira festa na floresta. Era década de 80, e a musiquinha, dos Originais do Samba, era essa:
Quando eu entrei na mata,
Bebi água na cascata,
Era uma linda manhã, que manhã, que manhã
Os macacos pulavam em festa,
Era aniversário do Tarzan.
O Príncipe Lothar e o Mandrake,
Chegaram com o Fantasma Voador,
Tudo era alegria.
O zorro chegou beijando o sargento Garcia,
A Mônica com aquele jeitinho que só ela tem,
Bateu no Cascão e no Anjinho também,
E fez o Cebolinha cantar parabéns.

São versinhos que me fazem chorar até hoje, aos 31 anos de idade, e me sentir de novo a menininha que adormecia, protegida, em cima da pança redonda e divertida de seu pai-Tarzan.

Por muito tempo, meu pai foi o Mussum, dos Trapalhões, por que era dele a voz mais grave da festa na floresta, o título de mestre-sala da batucada do botequim, a gargalhada que ecoava pelos corredores da vida, pelas piadas contava sem ensaiar, por tinha doutorado sem saber, diploma de doutor da mais autêntica expressão de vida já conheci.

Por isso hoje, 17 anos depois, sem razão aparente, dona lembrança resolveu aparecer para me pedir uma homenagem, uma justa homenagem ao meu pai Gilberto, movida pelo doce apelo de uma terna lembrança que me convida, a entoar baixinho, aquela canção, pai, a nossa canção:

Nesta rua, nesta rua
Tem um bosque
Que se chama, que se chama
Solidão
Dentro dele, dentro dele
Mora um anjo
Que roubou, que roubou
Meu coração

***
Uma homenagem ao dia do Índio, ao seu dia, pai, quando resolvi, finalmente, lhe fazer uma visita.
Da filha que te ama, sempre,
Nana

***

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1 Comments:

At 19 April 2009 at 11:10 , Blogger Unknown said...

Que lindo texto Dani.
Me emocionou...
=]

 

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