Monday, 1 December 2008

Entre os Flintstones e os Jetsons: Divagações sobre o mundo real e o virtual

Não sei exatamente porque, mas tenho a impressão de quando passo o dia inteiro em frente ao computador, não rendi o dia.
Uma sensação de culpa me invade, como se pudesse tê-lo aproveitado mais caso tivesse feito algo materialmente visível.
Faz sentido?
A sensação de eu poderia estar do lado de fora da janela de meu escritório, interagindo de verdade com gente de carne e osso, falando em alta e viva voz, ao invés de enfiada neste simulacro de realidade, me faz, no mínimo, lamentar esse afastamento gradual do mundo real – dotado de cheiros, cores e sensações ‘incopiáveis’ – que vivemos, nos levando pra dentro de uma tela e disfarçando, enganosamente, sob o pretexto de uma falsa ‘interatividade’ a bruta solidão a que fomos levados na contemporaneidade.
Sôo pessimista?
É, eu sei, devem ser resquícios de minha geração, acostumada com o velho conceito de realidade advindo do mundo real.
Sou mesmo radical às vezes. Já pensei, inclusive, em abolir o computador aqui dentro de casa, para que possa voltar a usufruir de atividades de verdade (!) – como se minhas longas horas de extenuante exercício intelectual frente ao PC de nada valessem. Vai entender!
A questão do tempo é outra coisa que não entendo no mundo virtual – ele voa!!! A impressão que tenho é que os inventores dessa nova realidade fizeram um pacto com o universo para que o tempo corresse mais rápido nessas horinhas de indulgência virtual. E acertaram!
Lá se vão 1, 2, 3, 4, 5, 6 horas ininterruptas entre chats, sites de notícias, emails, compras, orkut, blogs, fotolog, trabalho, é preciso se atualizar, meu Deus, onde estava aquela informação? Já foi, minha filha, virou obsoleta, se ligue!
É um link que leva a outro, depois a outro, e outro. Oooops, onde é que eu estava mesmo, hein?
E olha que não parei nem para comer nem para fazer xixi, credo.

Foi-se o tempo em que havia um limiar entre os dias de semana (=dias de trabalho) e fins de semana (=dias de lazer).
Sábado de manhã, juro a mim mesma, entoando como mantra: hoje é meu dia de lazer, lazer, lazer, lazer...
Internet só para ver a quantas anda meu horóscopo, planejar aquela merecida viagem de férias. Abro a caixa de emails, alguém grita do outro lado: professoraaaaaaaaaaaaaaaa, já corrigiu a prova? Pode me orientar? lê aí o meu projeto!; Abro outro email que diz: o prazo para submissão dos artigos para participação no Congresso Internacional na Conchinchina é... hoje! (é sempre para ontem!)
Meu Deus, não posso perder este prazo!!!
Mais um email: Por favor, preencha o formulário abaixo e atualize as suas informações. Formulários, formulários, formulários.
Enquanto faço, sem pestanejar, o que me é solicitado, toca o celular: “e aí, recebeu o email? Te mandei há 1 minuto, você ainda não respondeu?”
Na era dos Jetsons, espera-se que estejamos 24 horas online. E eu não como? Não vou ao banheiro? Não saio? Não namoro? Não respiro?


Assim, o mundo real vai ficando cada vez mais distante, longínquo e se não nos impusermos um freio, cairemos na armadilha de virarmos seres mais virtuais do que reais, escravos de uma tecnologia que nos sufoca, nos faz perder o limite do uso saudável do progresso tecnológico.
Meu sonho hoje é passar um mês sem ligar o computador. Sem medo nem culpa de ver a caixa de entrada de meu email atolada de mensagens, esperando respostas urgentíssimas para ontem.
Olho pro relógio, e lá se foi meu sábado e meu domingo, hoje já é segunda e nada rendi no fim de semana. Quer dizer, materialmente falando. Por que na cadência do mundo cibernético, 24 horas do tempo-real são proporcionais a 8 horas-luz do tempo virtual.
Nossa, já é hora do almoço. Como assim, se acabei de tomar café da manhã?!...
E num piscar de olhos, a vida passa sem eu que perceba os seus ciclos. Do lado de fora da janela, vejo o dia ir e vir, 2008 já se foi e lá vem 2009. Já passei dos 30 e nem me dei conta.
Como era tudo antes disso? O que fazíamos, como sonhávamos, como passávamos o tempo? Como era mesmo que trabalhávamos sem computador, sem Internet, saíamos sem celular?
Meu Deus, já nem me lembro da era dos Flintstones, quando nasci, em que era feliz e não sabia.

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2 Comments:

At 1 December 2008 at 18:26 , Blogger Isa said...

Oi Dani!
Nossa, eu sei do que você está falando. De vez em quando fujo dele, no dia a dia ou nas férias, mas é graças a ele que posso ter contato com pessoas como tu, ou retomar contatos, sem pressa. Estudar, trabalhar de camisola...
Sei lá Dani, às vezes no computador a vida cintila muito mais, é mais sensível do que o surreal escorrendo lá fora, sem brilho nem contraste...
beijos

 
At 3 December 2008 at 06:56 , Blogger Dani Almeida said...

Tens razão, Isa, o mundo virtual tem suas vantagens. É que às vezes sinto minha energia sendo sugada por esse bichinho, que vai engolindo aos poucos aqueles preciosos minutos que só a 'realidade real' podem nos proporcionar. Bjinhos pra ti e um lindo aniversário (já adiantando a festa da sexta!);o)

 

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